24 de set de 2013

O mercado do artigo cientifico


Autoria: Lilian Cristina Monteiro França*

Fonte: Jornal da Ciência. Data: 13/09/2013.

URL: www.jornaldaciencia.org.br/impresso/JC745.pdf

Não existe pesquisa sem revisão de literatura e referencial teórico. Em um momento em que se acelera o fluxo de comunicação, e a Internet disponibiliza uma vasta gama de artigos científicos, escritos sob as mais variadas perspectivas, orientações e matizes teóricos, uma nova barreira apresenta-se.

Se, antes da rede das redes, o acesso à produção acadêmica envolvia o deslocamento até as grandes bibliotecas e a seus acervos de livros, revistas científicas, teses, dissertações e monografias, demandando recursos consideráveis para o transporte/alojamento, hoje, a cobrança por acesso a conteúdo (paywall systems) vai surgindo como nova preocupação, mais uma vez segmentando o acesso ao conhecimento.

Um pesquisador que deseje ler o artigo “n-3 fatty acids and lipoproteins: Comparison of results from human and animal studies”, de William S. Harris, deve “comprar o artigo” por $39,95 (USD); aquele que quiser estudar as mudanças no jornalismo contemporâneo poderia, por exemplo, selecionar os artigos “Dumbing down or shaping up: New technologies, new media, new journalism”, “Journalism in a state of flux: Journalists as agents of technology innovation and emerging news practices”, “New media and journalism practice in Africa: An agenda for research”, “Coming to Terms with Convergence Journalism: Cross- Media as a Theoretical and Analytical Concept”, “US Foreign Correspondents: Changes and Continuity at the Turn of the Century”, e teria em seu “carrinho de compras” a quantia de $125 (USD), $25 (USD), pelo acesso a cada um dos cinco artigos.

Mas, se o preço parece alto, existem alternativas; é possível alugar um artigo científico por 24h com valores que oscilam entre $1,99 (USD) e $12 (USD) ou optar pela compra de pacotes que dão direito à leitura de um determinado número de artigos por um preço mais baixo, por $9,99 (USD) ou $19,99 (USD), a depender da área.

Nesse shopping de artigos, a lei da oferta e da procura também funciona, artigos mais procurados têm valor mais elevado, assim como autores mais conceituados.

Como determinam as estratégias de marketing, lançamentos são mais caros e artigos com mais de dois anos sofrem deflação; alguns chegam, mesmo, a entrar no espaço de liquidação, antes de serem liberados para os espaços de acesso gratuito. Grandes portais oferecem planos individuais e institucionais e descontos especiais para quem quiser voltar a ser assinante.

No site da DeepDyve-Search, Rent, Read é possível arrendar 40 artigos por $40 (USD) por mês, com a vantagem (sic) de poder manter os artigos alugados não utilizados nos meses seguintes (“Unused rentals get rolled over”, afirma o site). O site promete também varrer a DeepWeb, zona não indexada da Internet, onde supostamente se encontram artigos e pesquisas raros, além dos chamados materiais proibidos (como manuais terroristas, pornografia, tráfico de pessoas e drogas, entre outros) e que merece a constante vigilância dos serviços de informação.

Em resumo, o DeepDyve protege (sic) o usuário, que não precisa arriscar-se a mergulhar nas águas turvas da “web invisível”.

Ironias à parte, o mercado de artigos científicos vem se tornando cada vez mais rentável.

Duas das maiores editoras de artigos científicos elevaram os preços de suas assinaturas online em mais de 145% nos últimos seis anos. A crise promovida pelos paywall systems não atinge apenas os pesquisadores individuais.

Recentemente, a universidade de Harvard publicou uma nota informando que não pode mais arcar com o custo da assinatura de revistas e portais científicos (cerca de 3,5 milhões de dólares por ano) e recomendou que seus pesquisadores passassem a publicar seus artigos em plataformas de acesso livre. Robert Darnton, diretor da Harvard Library, em entrevista ao jornal The Guardian, disse que o custo da assinatura de uma revista científica, como o The Journal of Comparative Neurology, equivale ao custo de produção de 300 monografias (ver www.theguardian.com/science/2012/apr/24/harvard-universityjournal-publishers-prices).

Um movimento chamado “primavera acadêmica”, uma analogia à chamada “Primavera Árabe”, capitaneado pelo matemático e pesquisador de Cambridge, Tim Gowers, prega um boicote à principal editora de publicações científicas, a Elsevier. O movimento conta com um site, o The Coast of Knowledge (http://thecostofknowledge.com), em que os pesquisadores podem declarar o seu boicote e optar porpublicar apenas em plataformas de acesso livre. O grupo também se recusa a atuar como parecerista para qualquer tipo de publicação que cobre por acesso, numa estratégia que pode desmontar os sistemas baseados na avaliação do tipo peer reviewed.

As três maiores editoras da área, Elsevier, Springer e Wiley, detêm mais de 20 mil publicações científicas e representam 42% de todos os artigos publicados no mundo, e o lucro das três somam alguns bilhões de dólares.

Submeter artigos para a publicação em alguns periódicos também implica o pagamento de taxas. A pressão para que os pesquisadores tenham seus trabalhos publicados abriu um novo nicho de mercado; o preço para publicar artigos em algumas revistas chega a $5.000 (USD), como é o caso da revista Cell Reports, que destaca: “To provide open

access, expenses are offset by a publication fee of $5000 (USD) that allows Cell Reports to support itself in a fully sustainable way. This publication charge is the only fee that authors pay” (grifo meu). O valor da taxa é superior à maior parte dos salários mensais pagos a professores universitários no Brasil. A Cell Reports não cobra pelo acesso aos artigos, inserindo- se no rol das publicações do tipo open acess.

Algumas publicações exigem pagamento mesmo para artigos que forem rejeitados, sob o argumento de que os pareceristas são remunerados para fazer a avaliação dos artigos.

A remuneração varia, em média, entre $32 e $400 (USD), para cada artigo avaliado.

De todo modo, as contas não fecham. Os custos com impressão em offset não se justificam numa era em que as publicações são majoritariamente baixadas pela web, os custos administrativos alegados e com os pareceristas também não justificam o fato de um artigo de 20 páginas custar quase o dobro de um livro de cem páginas. Se a lógica fosse essa, as editoras já teriam fechado as suas portas.

O chamado “fator impacto” determina o “preço do prestígio”, fazendo com que os pesquisadores invistam no pagamento para publicar, ameaçados pela pressão do “publicar ou perecer”.

Recentemente, quatro periódicos brasileiros foram punidos pela Thomson Reuters e suspensos do ranking por um ano, em virtude da aplicação de um algoritmo que fazia elevar o “fator de impacto” através do aumento do número de citações, fator esse que é considerado nas avaliações de jornais científicos.

Em uma era marcada pela Web 2.0 e sua perspectiva de produção colaborativa, o mundo acadêmico parece sucumbir à lógica capitalista do lucro, monetizando a ciência e a produção do conhecimento.

 

*Lilian Cristina Monteiro França é professora/doutora do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Sergipe (DCOS).

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