28 de abr de 2014

Ler com as mãos na era digital

Autoria: Carolina Rico.
Fonte: Renascença. Data: 23/04/2014.
URL: http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=30&did=146258
A Biblioteca Nacional produz e distribui livros para cegos desde 1969. Além de livros em braile, aqui também já é possível requisitar livros em formato áudio e digital.
Uma voz feminina dá voz ao Quinto Livro de Crónicas de António Lobo Antunes no “smartphone” de Carlos Ferreira, responsável pela Área de Leitura para Deficientes Visuais da Biblioteca Nacional. Cego de nascença, Carlos é Licenciado em Organização e Gestão de Empresas e conta com as novas tecnologias para ler em braile ou ouvir um livro digital em qualquer lugar.
Mais do que ouvir, Carlos gosta de ler. Para tal, basta ligar ao telemóvel, via Bluetooth, um dispositivo portátil com uma linha braile. À medida que lê cada frase, os pontos sobem ou descem nesta linha, para formar novos caracteres.
É possível guardar centenas de livros digitais na biblioteca de um “smartphone”. A Biblioteca Nacional oferece uma cópia destes livros aos seus leitores, mediante pedido. Levá-los para fora de casa, em formato braile, seria uma tarefa impossível. “Seriam precisos camiões para transportar os meus livros digitais caso fossem de papel”, diz Carlos Ferreira.
Transportar apenas um livro já é difícil, isto porque os livros braile têm uma dimensão bastante superior aos livros convencionais. Os Maias de Eça de Queirós, por exemplo, têm 21 volumes de tamanho A4.
Com cerca de 2.900 títulos em braile, correspondentes a mais de nove mil volumes, a Biblioteca Nacional recebe por ano, em média, 2400 pedidos de requisição de livros neste formato. Os volumes são enviados pelo correio de forma gratuita aos leitores cegos de todo país.
Um cartão colocado na parte de fora da embalagem transportadora inclui a morada do destinatário e da biblioteca impressa em tinta e braile, para facilitar a devolução dos livros de forma autónoma.
Ouvir um livro em casa também é possível graças ao trabalho de dezenas de voluntários que gravam livros de todos os géneros no estúdio da biblioteca.
As mais de 20 mil horas de gravação incluem uma leitura cuidada, com numeração de página e descrição da capa, imagens e fotografias, porque - diz Carlos - “alguém se lembrou de que os cegos também tinham direito à imagem”.
Todos os nomes estrangeiros são soletrados. “Um cego, mesmo que seja licenciado, que nunca tenha lido, em braile, a palavra McDonalds, não vai saber como se escreve”, o ouvido engana, explica Carlos.
As gravações fazem-se agora em formato digital e podem ser enviadas para os leitores através da internet. Converter para digital todos os livros gravados em áudio analógico, em cassetes e bobinas, é um trabalho que ainda levará alguns anos a estar concluído.

Comemora-se hoje, quarta-feira, o dia mundial do livro. Uma data para recordar a importância da leitura, quer esta se faça com recurso à visão, audição ou ao tacto.

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