1 de mai de 2013

Entrevista: Alberto Manguel


Autor: Luis Costa Pereira Junior
Fonte: Revista Língua.
O leitor lê o que quer, o escritor escreve o que pode. A frase de Jorge Luis Borges é usada pelo ensaísta Alberto Manguel como um mantra: porque não se sabe como será interpretado, deve-se escrever como uma extensão da leitura.
No fim do ano, o autor argentino radicado no Canadá veio ao Brasil para a VI Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto), divulgar “A Biblioteca à Noite” e “Todos os Homens São Mentirosos” (Cia. das Letras).
O tema biblioteca lhe é central. Está em “A História da Leitura” e no “Dicionário dos Lugares Imaginários”, que cravaram o nome de Manguel no Brasil.
Filho de embaixador rodou o mundo. Aos 14 anos, ia à casa de Borges ler para o autor já cego. Hoje, cita Borges "ao menos três vezes" por palestra. A citação ajuda o leitor a crer na realidade do texto e a levar a gente a sério, brinca. Agora, escreve um livro de ensaios (“O Leitor como Metáfora”) e a segunda novela “Um Amigo de Platão”, sobre dois homens que travam guerra sobre a verdade. Uma fábula. Afinal, para Manguel, nada é verdadeiro, a não ser o que encontramos nos livros.
Ler de fato nos melhora?
Fiz o secundário no Colégio Nacional de Buenos Aires, em meio à ditadura. Foi um professor de literatura de lá que me inspirou a escrever. Ele me fez descobrir a função humanizante da literatura, que a ficção é uma mentira que conta a verdade e a experiência dos personagens é, no fundo, a nossa experiência. Veja, os alunos desse colégio fizeram forte oposição aos militares. Pouco depois eu saí do país, mas soube que muitos de meus colegas foram denunciados, torturados e mortos. Uns vinte anos depois, voltei à Argentina para uma festa de ex-colegas. E descobri, chocado, que aquele professor era o informante dos torturadores. Ler em si mesmo não é mais que uma atividade essencial. Mas o valor do ato está dado pelo uso que fazemos da leitura.
Para Paul Virilio, o símbolo do século 20 foi o arvoredo amado por Goethe, intacto num campo nazista. Um leitor refinado comandara aquela carnificina.
Minha primeira reação foi rechaçar a literatura associada àquele professor. Mas percebi que a literatura é uma forma de manter atenção entre duas margens. Há incontáveis exemplos de leituras que conduziram a atos terríveis. O mais anedótico foi o daquele que leu “O Apanhador no Campo de Centeio”, do Salinger, e entendeu pela leitura que havia de matar John Lennon. Mas há leituras que permitem fazer uso da memória da
experiência do mundo. Nesse caso, ler melhora nossa maneira de atuar.
Se, como você diz, sabemos que o universo não tem sentido, por que ainda lemos e escrevemos livros?
Em parte, ler é extensão de uma função biológica. Certos animais usam de camuflagem e outros criam defesas para atuar no mundo. Nossa espécie desenvolveu a imaginação, uma forma de construir o mundo antes de experimentá-lo. Se posso imaginar como é pôr a mão na boca de um tigre, sim, vou pôr a mão. A imaginação faz com que inventemos histórias para reter nossa experiência. Para conhecê-las, desenvolvemos a leitura. Lemos e escrevemos para entender a experiência antes de tê-la e para ativar
nossa própria experiência, para dizer que essa é a forma que sentimos e entendemos, para que as gerações futuras possam sabê-lo.
Como foi ler para Borges?
Quando ficou cego nos anos 50 ele se deu conta de que precisava dos outros para ler. Pedia a qualquer um, pois não lhe interessava uma leitura interpretativa. Eu trabalhava numa livraria. Um dia, ele me pediu. Era uma leitura sem entonação, que interrompia para entender como o texto foi construído. Sobretudo, queria que eu lesse contos porque voltara a fazê-los, e eles viraram “O Informe de Brodie” [1970]. Para mim, foi uma experiência mecânica.
E a convivência com ele?
Borges tinha grande senso de humor, mas não era afetuoso no sentido pleno da palavra. Não creio que tivesse amigos. Com Bioy Casares tinha uma relação particular, mas intelectual. Era amável, mas nunca, nunca houve uma conversação pessoal, de me perguntar sobre a vida, meus interesses.
Sua obsessão pelo tema biblioteca veio de Borges?
Sim e não. Tudo meu tem influência dele. Mas meu interesse em livros e bibliotecas começou aos 4 ou 5 anos. Sempre estive rodeado de livros, e desde pequeno ordenava as obras de certa maneira. O benefício de ter conhecido Borges foi ter contato com certos autores e uma forma de pensar a leitura, mas não diria que foi a partir dele que começou meu interesse no tema.
Por que tomou a leitura como objeto de pesquisa?
Não me definiria pesquisador, mas alguém que tenta entender o que faz. Desde os meus 3 ou 4 anos, minha família viajava muito. Não contava com um lugar fixo, sempre meu. Esse lugar, para mim, foi o livro. Lembro de sentir um alívio ao chegar em casa e encontrar num livro o mesmo texto, com a mesma ilustração na mesma página. Essa foi para mim a experiência primária. Aprendi nos livros o que era a amizade, a morte, o amor, antes de conhecê-los na vida de carne e osso.
Quais os livros que considera essenciais?
Mudam todo dia. Os importantes dependem de quem somos quando os escolhemos. Em certo momento, o mais importante pode ser “Alice no País das Maravilhas”, esta manhã “A Divina Comédia”, esta tarde não sei o que será. Toda biblioteca é uma autobiografia. A minha é um conjunto de possibilidades de quem sou. Às vezes essa possibilidade coincide com certo título, me dou conta que um título é a pessoa que fui há anos e é como visitar uma memória passada.
Qual é o seu método de pesquisa?
Desordenado e amplo. Quem não sabe precisamente o que procura, busca em muitos lugares e direções, e isso faz com que a pessoa pareça erudita, mas seu trabalho nasce da ignorância mais profunda. Se quiser escrever sobre Santo Agostinho, investigava tudo, pois dele nada sabia. Não tenho metodologia, mas curiosidade e uma forma de pensar distraída e associativa. Isso confere certa complexidade à produção de ensaios.
Permite criar ensaios melhores?
A novelista americana Cynthia Ozick dizia que há duas metodologias para escrever ensaios: uma é recordar o caminho sabendo aonde chegar e a outra é passear pelo bosque, ir à esquerda, à direita, e é melhor nem chegar a alguma parte. Minha tendência é a de passear, pois não tenho a mente rigorosa, mas há ensaístas de uma luminosa claridade, que sabem aonde vão desde o início. Borges, por exemplo. Não creio que se possa falar qual a melhor possibilidade. Só do que dá resultado ou não. "Ler é extensão de uma função biológica. Certos animais usam de camuflagem e os criam defesas para atuar no mundo. Nossa espécie desenvolveu a imaginação, uma forma de construir o mundo antes de vivê-lo".
Qualquer assunto pode ser tratado dessa forma?
Há ensaios maravilhosos sobre nada. Xavier de Maistre criou [em 1794] um magistral: “Viagem ao Redor do meu Quarto”. Qualquer tema se presta à interrogação e talvez o ponto de partida seja este: fazer uma pergunta e chegar a uma melhor pergunta.
Como insere seus livros recentes em sua obra?
Quando comecei a escrever, eu o fiz consciente que estava escrevendo como leitor, não como um escritor. Mas nos livros que fiz não sei se há uma progressão, um aumento de complexidade ou um melhor entendimento sobre algo, mas uma abertura de perguntas.
Aonde levam essas perguntas?
Percebi, com “Uma História da Leitura”, que escrevia um livro com um número específico de capítulos, mas bem poderia ter cem mais. De alguma maneira, o tema da leitura abarca todas as atividades humanas e os conhecimentos possíveis. Quando Borges imaginou uma biblioteca contendo o universo, falava exatamente isso. Ao pensarmos o mundo como livro, como espaço que lemos, a leitura define todas as atividades. Não posso pensar em nenhum tema que não esteja relacionado ou incluído no tema da leitura.
Como vê o modo como é escrito o ensaio hoje?
Não há característica que defina o ensaio em um momento particular. Como gênero, muda em relação não só aos escritores como aos leitores. Um da Grécia antiga não se diferencia tematicamente de um diálogo ou poema filosófico, mas em certo momento há a intenção de tratar um tema de maneira particular, digamos em Plutarco, em Sêneca ou, nos latinos, em Cícero. Essa forma vai se definindo até Montaigne dar ao gênero a palavra "ensaio", como ideia de algo que se está provando, de se tentar algo a partir de uma voz particular. Não é que fosse a primeira vez em que foi feito, isso já existia. Mas Montaigne conscientemente diz ao leitor: "Estou num diálogo com você". Hoje, o ensaísta pode inventar técnicas ou limitar-se às já sabidas, mas faz o mesmo que todo escritor: estabelece um acordo. Não creio que haja um estilo particular no ensaio de nossa época.
Quais problemas a tecnologia coloca ao amante de livros?
A tecnologia é só uma fábrica de instrumentos que usamos de uma maneira ou outra. Quando falamos de problemas estamos na verdade falando da indústria eletrônica que leva à compra de aparatos na sua maior parte inúteis. A indústria distorce a relação entre leitor e texto, impondo instrumentos como razão para a existência do texto. Logo se inventam razões intelectuais para justificar o consumo, mas não há de fato motivo para o qual todos tenham necessidade de comunicação 24 horas todo dia, em toda parte do mundo.
A internet não é a grande biblioteca atual?
Internet não é biblioteca. É um lugar de acumulação de informação. É importante e banal. Numa sinagoga do Cairo medieval havia um tipo de depósito chamado Guenizá, onde era posto tudo o que era escrito. Porque podia conter o nome de Deus, nada era destruído... Havia cartas, documentos importantes, e listas de compras, contas, rascunhos. Com a internet há o mesmo. Em minha biblioteca, encontro a informação que quero, sei seu valor e peso. Mas na rede, em que poderia achar a mesma informação, não sei o contexto, a relação entre um texto e sua fonte.
"Há uma música, uma doçura na língua portuguesa, um sentido de que é um idioma respeitoso, que a mim encanta", mas sua função de acervo não seria inegável?
Há sites úteis, mas falta curadoria. Ao se criar a biblioteca de Alexandria, que pretendia ter tudo, o problema era que nenhum leitor poderia fazer uso eficaz de tudo. O que Calímaco, um dos primeiros bibliotecários, fez foi criar catálogos racionais: "nessa temática, estas são as obras importantes". Isso criou os primeiros cânones. Mas trouxe problemas. Implicou um tipo de censura. Se disser que algo é importante, outros não entram na seleção. Toda ordem significa um tipo de exclusão. Então, quando a internet oferece as primeiras seleções não é sequer pelas razões intelectuais que pautaram Calímaco. Há um sistema mecânico, que não tem a ver com a busca intelectual.
A literatura é uma forma de vencer o esquecimento. Há o risco de, na era da internet, voltarmos a esquecer?
Num diálogo de Platão, ele conta ou inventa o mito pelo qual o deus egípcio Tot oferece ao faraó o presente da escrita. O faraó o recusa. Se o aceitasse, os homens não mais recordariam, pois a escrita recordaria por eles. Séculos de literatura mostraram que a literatura serve para fomentar a memória. A acumulação indiscriminada e o mito de que as coisas caem na rede só por um período fazem com que a internet exista só num eterno presente. A história de uma ideia se perde e não há traços nem da correspondência - a maior parte dos e-mails se perde.
Sem data e contexto, desorienta-se o leitor...
No computador, toda versão é apagada, a última é o que fica. Quando Montaigne publica seus “Ensaios”, leva consigo uma edição para corrigi-la em casa. Depois que morreu, em 1588, o exemplar com as correções seguiu para edição. Está na biblioteca municipal de Bordeaux. Um de seus ensaios famosos é sobre a amizade. Quando fala da amizade com [Etienne de] La Boétie, Montaigne cunhou uma frase famosa: se lhe perguntam por que o queria como amigo, não saberia responder, salvo para dizer que ele era ele e eu era eu. Na edição impressa em vida, a frase era: "Se me perguntam por que o queria, não saberia o que responder", ponto. No exemplar modificado, com tinta negra, Montaigne agregou: "Salvo para dizer que ele era ele". E logo depois, em azul, "e porque eu era eu". Temos aqui a evolução de uma das frases mais comoventes da França, sabendo que primeiro se pensou uma coisa, depois outra e em seguida uma terceira. Hoje teríamos só a frase final, ainda comovente, mas sem história.
Acompanha a literatura brasileira?
Ela parece crescer de sua própria inspiração. A norte-americana é encerrada em si mesma, não conhece o resto do mundo. A brasileira conhece, mas se inspira em si. De Machado de Assis a autores mais recentes, todos parecem inspirados por suas circunstâncias a partir de uma língua que vão criando. Vemos isso em Guimarães Rosa, um fenômeno que não conheço em nenhuma outra língua ou literatura.
Do português, o que mais lhe chama atenção?
Não falo português, que para mim é como ler através de um vidro escuro, mas há uma música, uma doçura, um sentido de que é uma língua respeitosa, que a mim encanta, em particular no uso de "você", de "senhor". Sempre me pareceu uma língua que respeita constantemente o interlocutor, coisa que não se sucede no espanhol, por exemplo, e
certamente não com o inglês.

Um comentário:

Anônimo disse...

Excelente entrevista.