18 de ago de 2016

Falta de ar-condicionado pode afetar preservação do acervo na Biblioteca dos Barris

Fonte: Correio 24 Horas. Data: 13/08/2016.
A central única de ar-condicionado, que atende à biblioteca, está quebrada e não há previsão de quando será consertada, porque o serviço terá que ser licitado
Além da falta de segurança, funcionários de limpeza e ascensoristas, os frequentadores também reclamam da falta de ar-condicionado, que ameaça a preservação do acervo. A assessoria da Fundação Pedro Calmon não soube informar quando o problema iniciou. Segundo eles, a central única de ar-condicionado, que atende à biblioteca, está quebrada e não há previsão de quando será consertada, porque o serviço terá que ser licitado.
Ex-membro da Associação Baiana de Arquivistas, Herbet Menezes ressalta que o acondicionamento é fundamental para preservar a integridade física dos documentos em sua forma original e desacelerar o processo de degradação do acervo.
O Manual Técnico de Preservação e Conservação de Documentos, produzido pelo Arquivo Nacional, recomenda que materiais especiais como “discos, CDs, fitas cassete, fotografias, negativos, dispositivos, filmes (película), fitas VHS, Umatik ou similar, discos ópticos, CD-Rom, disquetes, fitas magnéticas, etc. devem ser recolhidos em depósitos climatizados”.
O manual de conservação do Arquivo do Estado de São Paulo recomenda que documentos devam ser mantidos em temperatura o mais próximo possível de 20°C e com umidade relativa entre 45% e 50%.
O pesquisador Nelson Cadena, que costuma ir ao local até três vezes na semana, diz que a biblioteca tem um dos melhores acervos da Bahia. “O de periódicos é o mais completo do estado. Infelizmente, esses problemas não são recentes, são antigos, mas foram piorando”, conta. O pesquisador diz ainda que as salas de leitura não têm ar-condicionado há meses.
“Os terminais de acesso aos jornais ficaram quebrados por um ano e 4 meses. A cultura na Bahia costuma esquecer a importância da preservação da memória. Se um periódico do século XIX se perde, pode ser o último e único do Brasil. Há mais de 30 anos que não se encadernam os jornais, estão amarrados em cordas. Hoje, a sobrevivência da biblioteca é por conta dos funcionários, bastante antigos, que têm amor e comprometimento com aquilo”, acrescenta.
Historiador e membro da Academia de Letras da Bahia, Francisco Senna diz que a biblioteca é um dos equipamentos culturais mais importantes da cidade. “Foi concebida enquanto espaço de cultura e arquivo. Seria lamentável se ela ficasse abandonada por descaso do poder público”, ressalta. Ele destaca ainda que a manutenção de livro é muito difícil. “Os ácaros e insetos atacam e destroem. É preciso manter as condições ideais, inclusive de temperatura. Biblioteca não é apenas ter livros em prateleiras, é também fazer sua manutenção, ter permanente atualização e prover fácil acesso para a população”.
Além da ameaça ao acervo, o pesquisador Eduardo Catemberg lembra ainda dos riscos à saúde. “O maior perigo é para a nossa saúde, porque a gente está aqui respirando micróbios. Eu trago a minha máscara e a minha luva porque aqui não tem, mas estou parando aqui porque minha garganta não aguenta mais”, disse.
Mais antiga biblioteca latina já teve cinco sedes
A Biblioteca Pública do Estado da Bahia é a primeira biblioteca pública do Brasil e também a mais antiga da América Latina. Ela foi inaugurada oficialmente no dia 13 de maio de 1811 onde hoje é a Catedral Basílica, no Terreiro de Jesus. Na época, era o prédio da Livraria dos Jesuítas.
De lá para cá, passou por cinco sedes – entre elas a Escola de Belas Artes, a Ladeira da Praça e o Palácio Rio Branco –, até chegar ao prédio atual, na Rua General Labatut, nos Barris, inaugurado em 5 de novembro de 1970. Um incêndio em 1912, provocado por um bombardeio, fez com que muitas obras adquiridas se perdessem. Móveis também foram roubados.

Hoje, a biblioteca de 205 anos de história é dividida nos setores de Braile, Infantil, Pesquisa/Referência, Empréstimo, Periódicos, Obras Raras e Valiosas, Documentação Baiana, Artes e Audiovisual. O acervo com 60 mil obras consideradas raras ou valiosas, como o Hino Nacional ilustrado, miniaturas de livros e dicionários, além da edição da obra Menino de Engenho, de José Lins do Rego, que teve tiragem de apenas 120 exemplares com ilustrações de Cândido Portinari.

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