5 de out de 2011

Entrevista; Clay Shirky

Fonte: Revista Época, n. 694, 5 set. 2011.
 “O Google não é a solução” – Levaremos décadas para construir a biblioteca ideal para a era da internet, diz o escritor americano.
QUEM É: Clay Shirky, de 46 anos é professor de jornalismo da Universidade Nova York.
O QUE FAZ: É escritor e conferencista. Estuda a influência cultural dos novos meios de comunicação.
O QUE PUBLICOU: Os livros Here comes everybody (ago como Aí vem todo mundo) e Cognitive surplus (ou Excedente cognitivo), nenhum deles publicados no Brasil.
Peter Moon
O excesso de informação a que somos submetidos é aparente, diz Clay Shirky, professor da escola de jornalismo da Universidade de Nova York. Segundo Shirky, nossa sobrecarga de informação não é recente. Tem anais de 500 anos. Começou com a invenção da imprensa por Gutenberg. Naquela época como hoje, o problema era o excesso de informações, mas a falta de meios eficientes para filtrar e achar o que se busca. Hoje, essa ausência faz as pessoas recorrerem aos celulares, às redes sociais e ao Goolge. Mas isso não resolve. Segundo Shirky, levou décadas para a humanidade aperfeiçoar o modelo de organizar a s informações dos livros em grandes bibliotecas. Agora, com o dilúvio via internet, o desafio é equivalente. Só que numa escala incomparavelmente maior.
ÉPOCA: A era da informação é marcada pelo excesso de notícias a que somos submetidos. Quanto esse excesso começou?
Clay Shirky: Em 1453, com a invenção da imprensa. Deste então, nós sempre estivemos sobrecarregados de informações. Em nenhum momento da história moderna ninguém pôde – por seus próprios meios – dar conta do dilúvio de informações a que foi submetido. Por causa da internet, temos a impressão de que o excesso atual é maior. O problema não é o aumento exponencial na quantidade de informação disponível, mas a falta de meios eficientes para organizar a busca do que se deseja no meio de um oceano de dados.
ÉPOCA: Temos o Google.
Clay Shirky: O buscador do Google é a melhor solução encontrada até o momento. Não é a definitiva. Ainda serão necessárias décadas até descobrirmos um mecanismo digital de busca que seja tão eficiente e confiável como a boa e velha biblioteca. No século XVI, com a explosão de publicações de livros, as pessoas se sentiam afogadas em informação. No começo, os livros impressos eram grandes e caros. Em torno de 1500, os editores italianos reduziram as dimensões dos livros para um formato bem menor. O novo formato permitiu aos leitores carregar livros no bolso e na bolsa. O preço dos livros caiu enquanto as edições e as tiragens aumentaram. Foi aí que o leitor de início do século XVI se viu sobrecarregado de informações. Mesmo os intelectuais ricos não tinham tempo para ler tudo o que era publicado.
ÉPOCA: A solução foi a biblioteca?
Clay Shirky: Sim, mas a idéia da biblioteca teve primeiro que ser resgatada. Na Antiguidade, bibliotecas eram locais para guardar livros e buscar informações. Essa função foi desvirtuada pela Igreja nos 1.000 anos da Idade Média, quando bibliotecas passaram a ser lugares destinados a esconder livros. A reinvenção da biblioteca passou pela criação tanto de um espaço físico para reunir leitores e livros quanto pela invenção de métodos para organizar e guardar livros, de modo a serem rapidamente localizados quando necessário. Todo esse processo levou décadas. É o que acontece hoje. A internet pública tem quase 20 anos. Ainda não surgiu um método definitivo de busca de informações. Hoje, o Google pode ser o mecanismo mais popular, mas não é perfeito nem de uso universal, como a biblioteca tem sido nos últimos 500 anos.
ÉPOCA: O que falta para termos uma biblioteca digital ideal?
Clay Shirky: Nosso problema é o mesmo dos anos 1990. Ainda não contamos com filtros realmente eficientes para pinçar no meio do palheiro digital aquela agulha especifica que buscamos. Levará décadas para aprendermos a gerenciar as informações neste novo mundo digital.
ÉPOCA: Em Excedente cognitivo, você diz que o excesso de informações é benéfico para a liberdade de expressão. Mas o que se vê é o fechamento de jornais e revistas em todo o mundo.
Clay Shirky: A transformação por que passa a imprensa escrita é um processo doloroso e sem volta. Quando surgiu, a imprensa escrita eliminou os antigos folhetins do século XVII. A imprensa escrita mostrou-se um modelo de negócio tão bom que sobreviveu por 200 anos. Esse modelo de negócio sustentado pela venda de publicidade, venda avulsa e assinaturas acabou. Os jornais e as revistas precisam mudar para sobreviver ou desaparecer. O estrago é maior na imprensa local, a dos diários das cidades médias e pequenas e dos jornais de bairro. Nos Estados Unidos, a imprensa local acabou. Ainda não surgiu um substituto para filtrar e levar as notícias aos leitores. Quem assumiu esse papel foi o cidadão, usando o celular, as redes sociais e o Twitter.
ÉPOCA: São ferramentas poderosas. Seu uso mobilizou multidões nas manifestações por democracia nos países árabes. Corremos o risco de censura?
Clay Shirky: A censura já começou. Os governos e as empresas estão apavorados com o poder dos novos meios. Veja o (site) WikiLeaks, que vem vazando milhares de documentos do governo norte-americano. Sua publicação na internet revelou ao mundo como os governos agem. Faltaram ao WikiLeaks os meios para filtrar e organizar aquela montanha de dados. Assim mesmo. Tudo mudou. Compara o WikiLeaks ao Napster, o  primeiro serviço de troca de músicas via internet, fechado em 2001 (que abriu caminho para cópia generalizada de música na Internet). O gênio saiu da garrafa.
ÉPOCA: A agilidade da internet e do celular não substitui o bom jornalismo. Prova disso foi a investigação do diário inglês The Guardian, que expôs as práticas ilegais do tablóide News of the World e colocou na berlinda o magnata Rupert Murdoch.
Clay Shirky: O trabalho do The Guardian foi excepcional. É o melhor jornal do mundo. Os caras ficaram quase dez anos em cima da mesma história! E conseguiram o que se pensava impossível. Praticamente colocaram no banco dos réus o até então todo-poderoso dono da News Corp. Foi lindo. Políticos e empresários ingleses morriam de medo de Murdoch. Temiam o poder de seus tablóides, que ele usava para atingir seus objetivos e atacar seus inimigos. Ao ver Murdoch na TV, interrogado no Parlamento inglês, as pessoas perderam o medo. O poder dele acabou. Eu o compara à Microsoft, Em 1998, ela foi processada pelo governo norte-americano por práticas monopolistas. Naquele momento, seus concorrentes perderam o medo. Hoje, a Microsoft ainda é rica. Porém, é irrelevante para a indústria de informática.

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