25 de nov de 2015

Historiador de Lagos quer fazer expedição à Oxford em busca de livros roubados

Autoria: Bruno Filipe Pires.
Fonte: Barlavento (Portugal). Data:
URL: http://barlavento.pt/destaque/historiador-de-lagos-quer-fazer-expedicao-a-oxford-em-busca-dos-livros-roubados-ao-bispo
O historiador José António Martins quer acabar com uma dúvida de 400 anos. Em 2016 pretende fazer uma expedição à Bodleian Library, em Oxford. O objetivo é autenticar o espólio de livros roubados pelo conde de Essex ao bispo do Algarve, durante o ataque e saque à cidade de Faro, em julho de 1596. Em que estado estão hoje? Quantos são na realidade? Quem os terá lido?
A ideia não surge do nada. Há vários anos que José António Martins se dedica a estudar a vida e a obra de D. Fernando Martins Mascarenhas, «um homem extraordinário, cuja personalidade, conhecimento jurídico, importância política e cultural, muito marcaram esta região. Fundou várias igrejas, colégios e conventos, e a própria organização da diocese do Algarve, como a conhecemos hoje, tem os seus fundamentos na estrutura que desenhou no século XVI».
Numa altura em que não existiam em Portugal muitas bibliotecas, ou «livrarias», o bispo do Algarve teve o infortúnio de ver a sua coleção particular saqueada. «Estamos a falar em obras que moldaram o pensamento europeu nos séculos XVI e XVII».
Para José Martins é importante conhecer finalmente a totalidade do espólio e estado em que se encontra. Apenas se conhece um inventário, dos anos 1920, curiosamente, trazido nos anos 1980, pela viúva do professor José António Pinheiro e Rosa, homem da cultura de Faro, que teve o cuidado de o copiar durante um curso de inglês que frequentou em Oxford.
«Da doação feita pelo conde de Essex à Bodleian Library de Oxford, numa totalidade de 176 títulos (215 volumes), mais de 60 pertenciam a D. Fernando Martins Mascarenhas, conforme se depreende pelo seu escudo de armas dourado colocado nas encadernações. Destes, mais de 40 são títulos teológicos e de conteúdo religioso e quase 20 de teor jurídico», explica José António Martins.
A este número, há ainda um outro, manuscrito sobre a «Vida do glorioso São João Batista», por António Pereira, «que tem uma dedicatória do autor» ao bispo. Tem a particularidade de ser o primeiro «exemplar manuscrito a entrar nesta biblioteca, quando abriu as portas a 8 de novembro de 1602», destaca. «Seria importante termos em Portugal uma cópia em suporte digital», opina.
Por outro lado, «será que esses livros estão ainda na Bodleian Library? Ou estarão em alguma biblioteca europeia ou internacional, a título de empréstimo para estudos ou exposições internacionais?», questiona. Terão outros ido parar a mais bibliotecas?
E quem as terá estudado ao longo destes séculos? «Será que o próprio bispo, nos seus serões à luz das velas, não terá anotado os seus livros? Já viu o que é descobrir essas notas hoje?» e relacioná-las com a vida e obra daquele que foi também reitor da Universidade de Coimbra.
Para este historiador, a viagem de estudo a Oxford é «um trabalho inédito e particularmente oportuno para melhor se entender a história da cultura portuguesa e europeia do período de Quinhentos». Há cerca de um ano, José António Martins apresentou a sua expedição à Direção Regional de Cultura do Algarve, que a remeteu para Lisboa. «Ainda aguardo uma resposta», diz.
Contactadas as câmaras dos municípios onde o bispo teve uma grande influência, assim como um papel importante no desenvolvimento socioeconómico do Algarve do século XVI (salvaguardando, como tudo indica, interesses económicos de cristãos-novos do Algarve), apenas a autarquia de Loulé respondeu, disponibilizando uma verba de 500 euros.
José Martins não esconde que é mais difícil empreender um projeto deste tipo a título pessoal. «Seria mais fácil se estivesse enquadrado no âmbito de uma associação». O historiador está disponível para colaborar com algum coletivo interessado em abraçar a iniciativa. Seja como for, promete não desistir.
«Já fiz contatos preliminares com a Biblioteca de Oxford e com os responsáveis do fundo documental, onde os livros se encontram depositados», pelo que o primeiro passo já está dado.

Um projeto aberto à comunidade

«Como historiador com experiência em investigações em projetos de variada índole, tanto em arquivos e bibliotecas nacionais e internacionais, julgo reunir as condições para levar a bom porto este projeto. Contudo, sem apoios, nada poderá ser feito», diz José António Martins, que não consegue pagar do seu bolso todas as despesas inerentes à expedição a Oxford. Numa primeira fase, o historiador estima que seriam necessários três mil euros. O suficiente para pagar as viagens, estadia e, sobretudo, o pedido de cópias dos frontispícios das obras com (e sem) as armas do bispo do Algarve. Este primeiro reconhecimento abriria caminho para uma segunda expedição, mais profunda, orçada em dez mil euros, a investir sobretudo em digitalizações de obras. «Torna-se, pois importante que autarquias, empresas e cidadãos, em geral possam colaborar neste projeto, através de donativos e apoios». O historiador sublinha que este crowfunding informal será transparente. «Será passado o respetivo comprovativo (recibo), assim como nas páginas deste jornal será publicado um relatório sobre o trabalho desenvolvido e os nomes» dos que ajudaram a realizá-lo. Quem quiser apoiar a causa, poderá fazer um depósito ou transferência para o NIB 0036 0179 9910 0056 1936 7.

Faro a ferro e fogo

O saque à cidade de Faro, em 1596, foi um dos acontecimentos mais significativos durante os 22 anos que D. Fernando Martins Mascarenhas foi bispo do Algarve (1596/1611). Reza a história que a frota inglesa tinha sido avistada ao largo do Cabo de São Vicente, em finais do mês de junho. Depois do ataque a Cádis, terminado a 16 de julho, julgava-se que o Algarve seria o alvo seguinte do conde de Essex e dos seus corsários. Aliás, o bispo saiu de Faro, à frente de um destacamento militar, a fim de reforçar a defesa de Lagos – onde se esperava que os ingleses atacassem – deixando Faro desprotegida. Assim, a 23 de julho de 1596, perante a falta de resistência com que se depararam, os ingleses decidiram atacar a cidade na manhã do dia seguinte. Chegaram a entrar em São Brás de Alportel. Entre 25 e 27 de julho «os ingleses tiveram tempo para tudo. Saquearam o que entenderam e, no fim, deitaram fogo» a Faro. «Até os sinos e o relógio da torre sineira da Sé foram roubados». No final, só ficaram de pé as igrejas de São Pedro e da Misericórdia. O bispo D. Fernando Martins Mascarenhas ficou sem a sua biblioteca, ou segundo se dizia na época uma «livraria».

Os livros do Bispo devem regressar a Portugal?


Tratando-se de uma biblioteca particular (não pertencendo, na altura, a uma instituição oficial estatal), será que não é legítimo colocar a questão sobre qual o local, onde o conjunto de livros a virem para Portugal, deveriam ser guardados? Fará sentido que os livros roubados durante o saque dos finais do século XVI regressem a Faro? «Porque não, Montemor-o-Novo, terra natal de D. Fernando Martins Mascarenhas ou mesmo a Biblioteca da Universidade de Coimbra, de que foi um dos reitores mais proeminentes, sendo da sua autoria a reforma dos Estatutos dessa Universidade?», contra-interroga José António Martins, para quem isso é uma questão secundária. «E, porque não a Biblioteca Nacional de Lisboa, se efetivamente se se tratam de obras ímpares para a História da Cultura Portuguesa»? A Bodleian Library é «uma das melhores do mundo, suportada financeiramente, em boa parte, se não no todo, por mecenas (ao estilo americano) e dificilmente, os livros, sairiam do seu arquivo para outra parte do mundo», conclui.

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