27 de fev de 2016

Meninas e mulheres do Morro: a ONG que vai além da missão de distribuir preservativos

Autoria: Nathalia Toledo.
Fonte: Rádio CBN. Data: 23/02/2016.
URL: http://cbn.globoradio.globo.com/grandescoberturas/rio-451-anos/2016/02/23/MENINAS-E-MULHERES-DO-MORRO-A-ONG-QUE-VAI-ALEM-DA-MISSAO-DE-DISTRIBUIR-PRESERVATIVOS.htm

Grupo tem parceria com a biblioteca comunitária da Mangueira, que tem 12 mil livros catalogados e recebe 600 visitas por semana. Trabalho começou em 1995 por causa do alto índice de doenças sexualmente transmissíveis entre os jovens.

'Eu não tenho uma formação acadêmica, né? Mas tenho uma expertise de saber que a leitura evolui, que a leitura te dá possibilidades, que a leitura de deixa mais apto a falar de qualquer coisa.'
Eis a nossa primeira carioca campeã. 
'Todo mundo na comunidade me conhece: E aí, Kely! Oh, vou botar meu filho lá, hein.'
Lá na biblioteca comunitária da Mangueira, que tem nada menos do que 12 mil livros catalogados e classificados por cores e recebe 600 visitas por semana. Mas pra entender bem esse feito, a gente volta um pouco no tempo. Nascida e criada no morro da Zona Norte, Kely Louzada faz parte de uma das primeiras famílias a habitar a Mangueira, vinda de Minas Gerais. Na década de 1970, era uma das poucas na comunidade que tinha televisão em casa. E isso já a incomodava de alguma forma.
'Eu levava a galera para assistir televisão lá, quem não tinha. Isso escondido da minhã mãe. Quando ela chegava do trabalho, já tinha que estar tudo arrumadinho, tudo organizado para ela não desconfiar que lá em casa virou um cinema. E fui crescendo com essa ansiedade, com essa preocupação com quem tem mais, quem tem menos.'
Em 1989, com 20 anos, Kely foi convidada a trabalharna Associação de Moradores da Mangueira. No ano seguinte, um episódio seria decisivo para contar essa história.
'Houve uma chuva tão forte que morreram pessoas. Eu lembro que passei três dias e três noites sem dormir fazendo comida, cuidando das crianças que ficaram sem casa e das próprias famílias, dando um acalanto e tal. E, pronto, eu queria aquilo ali para a minha vida.'
E foi assim que nasceu o Meninas e Mulheres do Morro. A ONG foi montada em 1995 por causa do alto índice de doenças sexualmente transmissíveis entre os jovens. Só que a missão de distribuir preservativos e orientar os adolescentes virou algo maior. 
'Agora nós oferecemos o preservativo e o livro. Porque se você lê muito, se você tem argumento, você vai ter argumento para falar 'tem que usar camisinha, cara, o mundo é esse'.'
Graças a parcerias, o projeto começou a construir uma biblioteca. E não é qualquer uma, não.
'A gente não queria um depósito de livro, a gente queria uma biblioteca comunitária com cunho de biblioteca. As próprias crianças vão às casas resgatar esses livros e eles falam 'ah, não, foi muito caro. A gente vai querer ler e o livro está lá guardado na casa da pessoa.'
O resultado? Os números mostram: hoje o mês mais fraco tem entre 280 e 300 livros emprestados. São quase 7 mil empréstimos ao ano. E a Kely cuida de tudo com a ajuda de quatro pessoas - à hora que for.
'Porque eu penso assim: quando uma pessoa quer ler, então pra quê que eu vou tolir isso? Pra quê eu vou cortar essa vontade? Então a gente vem e empresta nesse horário.'
A biblioteca da Mangueira recebe 120 crianças e adolescentes para atividades todos os dias, sem contar os visitantes esporádicos.
'Acima da metade das pessoas que nós atendemos nesses anos todos hoje tem uma faculdade, são pais e mães de famílias bacanas. Foram duas pessoas que nós perdemos para o tráfico. Pouquíssimo, né?'
Kely Louzada, 47 anos: uma carioca que briga por leitura de qualidade, por dignidade para os moradores da Mangueira. E que fala como se fosse fácil, como se não existisse um mundo de obstáculos para manter um projeto desses. 

'Quando eu olho e vejo de quando eu comecei até aqui, valeu a pena. Valeu a pena os finais de semana, os feriados, filho nascer e com seis, sete dias de alta já estar aqui com filho no carrinho... Todo dia eu levando e falo 'nossa, que bom, estou viva e vou pra lá de novo'. Mesmo a trancos e barrancos, sem grana, sem apoio, mas estou lá. Valeu a pena e vale a pena.' 

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