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11 de mar. de 2017

Por que os governos nunca abraçaram as bibliotecas?



Autoria: Volnei Canonica.
Fonte: Publish News.
Volnei Canônica discorre em sua coluna sobre o papel das bibliotecas e o que tem sido feito para que elas recebam os cuidados que merecem
Está marcado para amanhã, quarta-feira (25), no Centro Cultural São Paulo (Ruas Vergueiro,1000, Paraíso – São Paulo / SP), um "abraçaço" promovido por bibliotecários, funcionários, mediadores de leitura e amigos das bibliotecas. O ato simbólico, no dia do aniversário de São Paulo, é para mostrar o descontentamento a uma das primeiras medidas do novo prefeito João Dória de privatizar as bibliotecas públicas.
Mas por que os governos no Brasil nunca abraçaram as bibliotecas escolares, públicas e comunitárias?
Quando praticamos o ato de abraçar queremos mostrar que: gostaríamos de estar bem perto, gostaríamos de proteger, gostaríamos de trocar afeto.
Mas o que vemos há anos dos governos municipais, estaduais e federal em relação a estes equipamentos democráticos? Um aceno de adeus ou no máximo um aperto de mão. Nunca um abraço!
A biblioteca pública é o equipamento cultural que está presente em quase todos os municípios brasileiros. Em se tratando de comparação temos o dobro de bibliotecas públicas em relação a museus e salas de cinema. Se somarmos então as bibliotecas escolares, comunitárias, universitárias e especializadas, podemos afirmar (nas diferentes funções que cada biblioteca exerce) que esses equipamentos são fundamentais para que, além da informação, a cultura da escrita e da imagem seja acessada pelos brasileiros.
Quero dizer para os que ficam em suas casas lendo ou os que conhecem os livros apenas nas livrarias, que estão redondamente enganados e que as nossas bibliotecas estão "as moscas". Essa afirmação geralmente é feita por quem nunca pisou em uma biblioteca. Então, parem de achar que a instituição biblioteca está falida.
Não sou ingênuo, ou melhor, sou um bom frequentador de todos os tipos de bibliotecas em várias regiões do país e sei que em muitos lugares o potencial deste equipamento está funcionando a menos de 30%. Sabemos da falta de estrutura, de acervo, de profissionais qualificados, etc. Mas sabemos que neste mesmo lugar se a biblioteca fosse abraçada pela gestão pública o potencial de formar leitores seria contemplado em 100%.
Quando o prefeito de São Paulo anunciou que irá entregar 52 bibliotecas para organizações sociais fazerem a gestão, ele dá um belíssimo aceno de adeus a todo o trabalho realizado durante anos na maior rede de bibliotecas municipais da América Latina e atesta que a capacidade da gestão pública de seu governo é fraca e ineficiente.
Quando alguém se propõe a ocupar um cargo máximo na gestão pública é porque acredita e quer investir nela. Assumir a gestão pública e sair privatizando os espaços é quase a mesma coisa que assumir uma empresa privada cheia de funcionários, não pensar na qualificação e carreira deles, e contratar várias assessorias para fazer o trabalho.
Sou extremamente a favor da parceria entre o público e o privado. Podem perfeitamente se abraçarem. Mas nunca um pode ocupar o lugar do outro. Coordenei durante cinco anos um programa de promoção da leitura, de um instituto privado, que apoia o fomento de bibliotecas escolares, públicas e comunitárias. O papel que exercíamos era o de potencializar o que essas bibliotecas tinham de melhor e evidenciar suas fragilidades para que pudessem se transformar em fortalezas. Nunca fizemos a gestão destes espaços, mas sim apoiamos com conhecimento e ferramentas e também nunca decidimos sobre o bem público. Não cabe ao setor privado decidir políticas públicas. Isso não o isenta da sua responsabilidade sobre o que é público. Às vezes é muito tênue a linha que separa o público do privado e por ser tênue é que precisa estar bem definido o que é de um e o que é de outro.
Se a contratação de organizações privadas for para ajudar na burocracia e agilizar a realização de ações nas bibliotecas acho que são bem vindas. Mas se for para tomar conta de tudo, acho que estão em desvio de função. Conheço bem o sistema de Bibliotecas Parques da Colômbia que trabalha justamente nessa dobradinha público-privado. O privado tem um papel importante de produtor e viabilizador das políticas educacionais e de promoção da leitura que é pensada e gerida pela gestão pública.
Não consigo entender porque os políticos não fazem esforços para qualificar a gestão pública. Cada vez mais o Estado fica sucateado. Se o voto não fosse obrigatório será que servidor público votaria em algum candidato?
Tenho certeza que algumas pessoas irão dizer, mas na Europa, Estados Unidos, Japão, as bibliotecas são diferentes, são melhores. Minha primeira resposta seria: O que parece bom pra você talvez não seja bom para mim ou outros brasileiros. Depois com mais calma (sim fico nervoso quando o assunto é bibliotecas) eu perguntaria: O que você faz para as bibliotecas brasileiras serem tão boas como essas que você acha que é? Abraça as bibliotecas ou abana do outro lado da rua? Você cobra do seu candidato eleito ou daquele que se elegeu sem o seu voto que abrace as bibliotecas?
Conheço um monte de pessoas que tiram fotos em bibliotecas quando viajam para o exterior, mas nunca pisaram na biblioteca pública da sua cidade. Não sabem nem o endereço.
Claro que não é simplório tudo isso. Mas sabemos que a Cultura e a Educação são duas peças importantes no tabuleiro social. Ouso dizer que são rei e rainha. Sem essas peças fica quase impossível de se avançar no jogo do poder de decisão, de liberdade, de autonomia.
Enquanto os políticos continuam dando as costas para as bibliotecas a população abraça. Em tempos de caos ter acesso às letras para saber escolher a frase que nos move para a marcha de um país mais digno é fundamental. A minha eu brando aos quatro ventos "Um por todos e todos por um Brasil de leitores!".

30 de set. de 2016

Livro, leitura e bibliotecas estão no debate político e nas propostas de campanha

Fonte: Revista Biblioo. Data: 28/09/2016.
A construção e modernização das bibliotecas públicas, bem como o implemento de políticas para as áreas do livro e leitura são, em grande medida, responsabilidades dos municípios. Em função disso, as eleições municipais se mostram como um momento importante para se discutir essas questões e, principalmente, cobrar dos postulantes aos cargos do executivo e do legislativo propostas relacionadas a esses temas.
Pensando nisso, a Associação Catarinense de Bibliotecários (ACB) está levando a cabo uma campanha que pretende garantir o compromisso dos candidatos a prefeito e a vereador nos municípios do estado em relação à implementação da Lei 12.244, lei da biblioteca escolar e do cargo de bibliotecário em Santa Catarina.
A tática consiste em fazer a entrega aos candidatos de uma carta na qual ele se compromete a criar, investir e manter as bibliotecas escolares, assim como apresentar o bibliotecário como profissional de grande importância nas escolas e nas redes de bibliotecas. A ideia é estabelecer um diálogo com os candidatos, parlamentares e depois cobrar este comprometimento. Para acompanhar o desenrolar da campanha a ACB criou um mapa interativo com o nome dos candidatos que assinaram a carta e se comprometeram em dialogar. Até o fechamento desta matéria um total de 15 candidatos já haviam firmado o compromisso.
De acordo com a bibliotecária Camila Koerich Burin, presidente da ACB, a ideia surgiu a partir da fala da bibliotecária Miriam Mattos no decorrer do Encontro Regional de Educação em Ciência da Informação (ERECIN – SUL), realizado Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), em julho deste ano. Durante o evento Miriam falou da importância da participação dos bibliotecários nas políticas públicas e neste processo que antecede as eleições e frisou a importância de não se esperar que 2020 chegue para a efetivação da Lei 12.244 e que os prefeitos e vereadores eleitos em 2016 já teriam que se preparar para quando o prazo estabelecido pela lei se esgotar.
“A partir da ideia foi formada uma comissão entre: CRB-14, ACB (Diretoria e GBAESC), UDESC, UNOCHAPECÓ. O documento ‘Carta de Compromisso’ foi elaborado para ser entregue junto com orientações sobre os parâmetros mínimos, com base no material de Bernadete Campello, para o funcionamento das bibliotecas escolares”, esclarece Burin. De acordo com a bibliotecária os bibliotecários nos municípios foram convidados a se comprometer com a causa e dialogar com os candidatos. Neste primeiro momento da ação será finaliza na quinta-feira, dia 29/09, quando a instituição divulgará os candidatos que firmaram o compromisso.
Propostas genéricas
No que se refere à plataforma de campanha dos candidatos, seja para a prefeitura, seja para as câmaras municipais, na maioria das vezes as propostas em relação a área do livro, leitura e bibliotecas são demasiadamente rasas. No Rio de Janeiro, por exemplo, onde 11 candidatos concorrem a prefeitura, constata-se que as propostas para as bibliotecas em sua grande maioria aparecem de forma simplificada e em alguns programas de governo sequer são citadas.
Destaque-se o fato de que o candidato que assumir a prefeitura carioca em 2017 vai ter que um grande desafio no que diz respeito em manter e ampliar as bibliotecas municipais existentes. Hoje o município do Rio conta com um total de 22 bibliotecas e cinco espaços de leitura, como demonstrou a plataforma VozeRio ao apresentar recentemente um diagnóstico sobre a situação da rede municipal de bibliotecas da cidade.
Outro agravante no que diz respeito às bibliotecas cariocas é a falta de abertura de concursos públicos para bibliotecários. Em entrevista à Agência Brasil, Luciana Manta, presidente do Sindicato dos Bibliotecários do Rio de Janeiro (SINDIB-RJ), afirmou que já são quase duas décadas sem concurso público para bibliotecários no âmbito da Secretaria de Educação, além do estado que não abre concurso para a Secretaria de Cultura há mais de 25 anos, sem falar na pasta da Educação, que nunca fez concurso.
Mesmo diante deste quadro adverso, nenhum dos atuais candidatos à prefeitura do Rio colocaram como proposta de campanha a abertura de concursos públicos para bibliotecários. No programa de governo do candidato do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), Marcelo Freixo, as propostas que abarcam as bibliotecas estão colocadas dentro do tópico “Planejamento e Gestão, Educação e Cultura”.
No que se refere ao Planejamento e Gestão, a proposta é a de implementar uma rede sem fio que garanta internet pública, gratuita e de qualidade no município com a ideia de instalar postos de conexão em lugares públicos, dentre eles as bibliotecas. Em relação à Educação as bibliotecas são citadas juntamente com a garantia de estrutura das escolas municipais com a ampliação de bibliotecas e salas de informática. Por fim, no tópico Cultura é firmado o compromisso de ampliar o horário de funcionamento e investir na construção de bibliotecas municipais em as áreas de planejamento da cidade.
Mesmo se tratando de uma candidatura progressista e de uma proposta de governo que, segundo Freixo, foi criada com a participação da sociedade, as pautas em prol das bibliotecas, livro e leitura são generalistas. E embora exista o compromisso de ampliar os espaços de leitura, não são citados números e nem uma quantidade exata de novas construções.
No programa da candidata Jandira Fegali do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), as propostas para as bibliotecas também estão de forma genéricas e não muito diferentes das apresentadas pelo candidato do PSOL. Intitulado de “Rio Comum”, o plano de governo da candidata se refere às bibliotecas quando menciona a ampliação dos programas de inclusão digital do município com a Praça do Conhecimento. Nele é mencionado a oferta, principalmente nas comunidades mais carentes, a criação de bibliotecas digitais. No que diz respeito às bibliotecas municipais, Fegali propõe a modernização das bibliotecas regionais e a criação de três caminhões bibliotecas com o intuito de ampliar o raio de cobertura do setor de leitura e conhecimento. Com o intuito de propiciar a inserção cultural de pessoas com deficiência, a candidata prevê, ainda, a adesão de textos em braille nas bibliotecas públicas.
O programa do candidato Alessandro Molon da REDE as bibliotecas também são tratadas sem grandes novidades e seguindo o mesmo caminho dos candidatos apresentados anteriormente. As propostas de Molon se fixam em ampliar e qualificar a rede municipal de bibliotecas, adotando o modelo de bibliotecas parque e também melhorar a estrutura de trabalho dos profissionais da educação, oferecendo uma melhor estrutura com a criação de laboratório, bibliotecas etc. Em nenhum momento o candidato da Rede Sustentabilidade explica de que maneira e como vai ampliar as bibliotecas municipais e muito menos informa como vai adotar o modelo multimeios das bibliotecas parque.
Vale destacar que as três bibliotecas parque do estado situadas no município do Rio foram assumidas pela prefeitura até o fim deste ano ao custo de R$ 1 milhão e meio mensais. A dúvida que paira no ar é se a nova gestão municipal garantirá a manutenção do acordo a partir de 2017, garantindo a manutenção destes espaços.
Em Niterói, região metropolitana do Rio, a candidatura de Flávio Serafini (PSOL) à prefeitura apresenta uma proposta mais completa com uma política municipal de leitura e bibliotecas. Nela Serafini prevê seis pontos que vão desde a ampliação dos espaços de leitura nas escolas municipais, como também a abertura de concurso público para bibliotecários.
Os seis pontos apresentados pelo candidato são: 1) implementação gradual de bibliotecas em todas as escolas municipais; 2) criação de concurso para contratação de bibliotecários escolares; 3) elaborar e implementar o Plano Estratégico para a implantação progressiva das Bibliotecas Escolares nas unidades de ensino da Rede Municipal de Educação, garantindo o cumprimento da Lei Federal Nº 12.244, que dispõe sobre a universalização das bibliotecas nas instituições de ensino do país; 4) criar o Sistema Municipal de Bibliotecas Escolares da Rede Municipal de Ensino de Niterói; 5) realizar automação das Bibliotecas Escolares da Rede Municipal de Ensino; 6) promover a migração dos bibliotecários da Fundação Municipal de Educação de 20 para 40 horas semanais para garantir a presença integral do profissional na escola.
Em São Paulo
Na capital paulista os planos de governos dos candidatos parecem não diferir muito dos do Rio. No caso do atual prefeito, Fernando Haddad (PT), que está em busca da reeleição, não existe nada de específico em suas propostas para as áreas do livro, leitura e bibliotecas. O bibliotecário William Okubo, entretanto, destaca o fato de a atual gestão é responsável por implantar algumas novidades nesta seara, destacando-se duas ações: a ampliação de horário da Biblioteca Mário de Andrade, que passou a funcionar 24 horas e a implementação do Plano Municipal do Livro, Literatura, Leitura e Bibliotecas, que apesar de apoiado pela Secretaria Municipal de Cultura, teve grande empenho de um vereador Antônio Donato, do PT, que entre seus assessores possui um bibliotecário.
Luiza Erundina, candidata pelo PSOL, por sua vez, promete equipar as escolas com materiais e acervos atualizados, além de criar pontos de Leitura. As propostas da candidata preveem, ainda, a implantação, em prioridade, do Museu da Cidade, cuja diretriz e o escopo de sua política será a memória viva da cidade. Erundina deve também assegurar que toda subprefeitura conte com, ao menos, um teatro, uma biblioteca, um cinema, um museu e um espaço para oficinas culturais, cursos de iniciação artística e exposições.
No que se refere ao Sistema Municipal de Bibliotecas, a Psolista promete alterar sua estrutura, saindo de um padrão hierarquizado para um padrão de trabalho em rede. “As bibliotecas também devem atuar como espaço de acolhimento, fruição e projeção, não exclusivamente, mas especialmente das práticas de leitura e escrita. Criação de uma ‘Rede de Leitura’, composta pelas bibliotecas públicas, centros culturais, bibliotecas e salas de leitura da rede escolar municipal e parceiros. ”
No plano de governo de João Dória, candidato pelo PSDB, consta a proposta de potencializar as ações de incentivo à leitura na rede municipal de bibliotecas entre as quais se incluem criação do prêmio “São Paulo Amiga da Leitura”, promoção de leituras dramáticas, alfabetização digital, informação ao cidadão, criação de brinquedotecas pedagógicas, implantação de bibliotecas infantis nas zonas periféricas e reativação e aumento do número de ônibus biblioteca.
De acordo com Okubo, devido a problemas contratuais e falta de recursos em 2016, os ônibus-bibliotecas estão parados há quase um ano. “Realmente um problema”, reclama. “Mas por outro lado, nessa gestão os ônibus foram reformados e estavam funcionando a contento antes dos problemas informados”, destaca o bibliotecário.
A proposta de Celso Russomano, candidato pelo PRB e líder das pesquisas de intenção de votos na capital paulista, é, de longe, a mais genérica: “ampliação dos acervos de livros e das atividades de leitura”. Algo não muito diferente das propostas do candidato do Solidariedade, Major Olímpio. Segundo ele seu governo irá garantir que as escolas disponham de bibliotecas e de quadras poliesportivas cobertas nas áreas disponíveis, além de ampliar projetos de incentivo à leitura e aumentar o número de bibliotecas públicas.
Marta Suplicy, candidata do PMDB, fala em reorganizar o atual Sistema Municipal de Bibliotecas e criar a Primeira Biblioteca Pública Digital de São Paulo. A candidata promete também incentivar a leitura retomando o programa de biblioteca itinerante com o ônibus-biblioteca e pontos de leitura; implantar ações de educação patrimonial, sobretudo em escolas de educação infantil e fundamental; ampliar e intensificar a programação oferecida nos equipamentos culturais como bibliotecas e museus buscando promover maior integração destes com a população e criar programas de registro e salvaguarda do patrimônio imaterial.
Por fim Ricardo Young, da Rede, se compromete em estimular coletivos de educação não ­formal e atividades para crianças em espaços públicos (Rodas de Leitura, Barro Molhado, Semana do Brincar). Segundo ele, enquanto as bibliotecas da Sé abastecem cada habitante com uma média de 16,8 livros, no Grajaú esse índice é zero. Por isso ele deve, conforme suas propostas, construir bonitos centros culturais, mas primeiro reconhecer e fortalecer os saraus, as ocupações, os grupos culturais locais, seus eventos e atividades. “Transformar cada garagem, laje, terrenos e espaços ociosos em bibliotecas, sala de cinema, espaço cultural gerido pela comunidade local em parceria com as co-prefeituras”.
Para o William Okubo, os planos são muito genéricos e pouco detalhados. “Apesar de ser mais um problema, eles demonstram um caminho. O caminho da aproximação dos profissionais e especialistas junto às equipes de Cultura e Educação dos partidos para tentar mostrar o que é realmente preciso e também a pressão sobre o governo eleito, para que o que está no papel seja detalhado e implantado quando considerado correto sob o ponto de vista profissional”, avalia o bibliotecário. “Maior participação na política é o caminho para mudar as propostas feitas, incluindo a aproximação com movimentos populares ligados à cultura e educação, pois o caminho inverso, do povo para os políticos deveria ser o foco do nosso advocacy”, defende.
Planos de Livro e Leitura

Cabe ressaltar ainda que tanto no município, quanto no estado do Rio estão sendo discutidos e implementandos os respectivos os Planos Municipais e Estadual do Livro e da Leitura. Em nenhuma candidatura foi apresentada uma proposta que leve em conta esses programas e muito menos a criação de uma política pública concreta e menos reducionista para as bibliotecas e para a área do livro e da leitura. O cenário se repete em vários outros municípios do país.

17 de mar. de 2015

Projeto da Politica Nacional de Bibliotecas

A tramitação do Projeto de Lei, que abre novos caminhos para o estabelecimento de políticas públicas para Bibliotecas, tem início no Senado Federal. A partir de agora, o sucesso de sua aprovação depende da mobilização de toda a classe bibliotecária.
Em 12 de março, Dia do Bibliotecário, o Conselho Federal de Biblioteconomia tem uma excelente notícia para toda a classe bibliotecária: já está na pauta do Senado Federal o Projeto de Lei do Senado (PLS) nº 28/2015, que institui a Política Nacional de Bibliotecas. De autoria do Senador Cristovam Buarque, o documento encontra-se na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania aguardando designação do relator. A tarefa dessa comissão é certificar-se de que o texto não fere nenhum princípio constitucional. Assim que for aprovado, o projeto será encaminhado à Comissão de Educação, onde especialistas, professores, estudantes, representantes de instituições e cidadãos atuantes no setor poderão manifestar-se sobre o conteúdo antes que seja levado para votação no Plenário e, posteriormente, siga um caminho similar na Câmara Federal.
Foi justamente na Comissão de Educação do Senado que a Política Nacional de Bibliotecas deu seus primeiros passos no Congresso Nacional. Esse trabalho iniciou, em abril de 2014, quando uma Audiência Pública, também proposta e presidida pelo senador Cristovam Buarque e com o apoio do CFB, reuniu os profissionais bibliotecários, usuários, professores, pesquisadores, dirigentes de associações e conselhos de instituições de classe para debater propostas relacionadas à criação dessa legislação. Na ocasião, foi discutido o papel da tecnologia, das bibliotecas alternativas, a maneira que a lei tratará das doações de acervos particulares, o compromisso da União nas questões orçamentárias e o entendimento da Biblioteca como centro de gestão do conhecimento fundamental para a preservação da cultura humana e instrumento essencial para construção dos saberes.
 “O PLS nº 28/2015 apresenta um texto de vanguarda para as bibliotecas brasileiras, construído respeitando o legado do passado, a experiência vivida no presente e a perspectiva do cenário futuro”, afirma a presidenta do CFB, Regina Célia de Sousa. Para ela, o projeto ajuda a resgatar a compreensão da verdadeira missão das bibliotecas para a sociedade. “A Política Nacional de Bibliotecas resolverá questões conceituais que atualmente prejudicam a compreensão da missão, usuários, acervos e serviços oferecidos à comunidade pelos diversos tipos de bibliotecas tanto no âmbito do Poder Legislativo, quanto na Administração Pública, como, por exemplo, a diferença entre o que são bibliotecas escolares, públicas, universitárias, especializadas e comunitárias”, pontua Regina.
Em relação aos anseios dos bibliotecários atendidos pelo PLS nº 28/2015, está a definição de que o livro e todos os demais tipos de material bibliográfico que compõem o acervo das bibliotecas, não mais será considerado material permanente, e sim, de consumo. O que tira desses profissionais a responsabilidade de repor com recursos próprios o material perdido em razão de desgaste pelo uso ou mesmo pelo seu extravio. A partir de agora, o CFB considera imprescindível a atuação de toda a classe para que esse projeto tramite rapidamente no Congresso Nacional. “Convidamos todos os bibliotecários do país a atuar junto aos congressistas de seu estado para que eles apoiem a aprovação desta lei tão importante para a categoria e para a sociedade brasileira”, encerra a presidenta do CFB.
Fonte: Boletim do CFB, n. 8, 13 de março de 2015.

11 de abr. de 2014

Brasil precisa de marco legal para bibliotecas

Fonte: Senado Federal. Data: 10/04/2014.
URL: www12.senado.gov.br/noticias/materias/2014/04/10/participantes-de-debate-dizem-que-brasil-precisa-de-marco-legal-para-bibliotecas
O Brasil precisa de um marco legal para fortalecer as bibliotecas, que imponha padrões de estruturação, esclareça as diferenças entre as tipologias e missões existentes e estabeleça recursos orçamentários permanentes para investimento. Desta forma, elas não ficarão à mercê do empenho de gestores engajados ou não e poderão ser instrumento de mudanças na sociedade.
Esta foi a tônica do debate realizado nesta quinta-feira (10) pela Comissão de Educação, a pedido do senador Cristovam Buarque (PDT-DF), para coletar sugestões que embasarão uma lei para fortalecer essas instituições. Isso permitirá, segundo os debatedores, que elas se tornem verdadeiros centros de estímulo à leitura e ao conhecimento e braços para o desenvolvimento social, e não apenas depósitos de livros.
- Como vamos ter cidadãos críticos, que façam uma reflexão sobre sua própria realidade, se ele não tem competências para usar a informação e reconhecer, saber o que de fato vale, qual a fidedignidade, avaliar se é plantada com outros objetivos, seja ideológico, político ou econômico, e saber fazer um discernimento claro sobre aquilo? Não vamos conseguir se não houver uma ação de escola, professores e bibliotecas nesse sentido – afirmou Marta Ligia Valentim, professora do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual Paulista (UNESP).
Os participantes da audiência apoiaram o projeto do senador Cristovam de federalizar a educação de base. Segundo eles, pelas diferenças regionais e de desenvolvimento existentes no Brasil, somente com atenção federal a educação, e por consequência as bibliotecas, poderão ganhar um salto de qualidade.
- Essa revolução educacional não virá se nós não fizermos a federalização da educação de base. Enquanto a educação estiver nas mãos dos pobres prefeitos, pobres e desiguais, a gente não vai ter a escola que deve. A União tem que assumir isso. E assumir as bibliotecas das escolas como uma questão nacional, e não como uma questão estadual e municipal – disse o senador.
Biblioteconomistas
Os debatedores também ressaltaram a importância do papel do biblioteconomista como mediador e sistematizador do conhecimento que as bibliotecas podem oferecer. Para Angélica Miranda, pró-reitora de Extensão e Cultura da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), a biblioteca tem papel fundamental para a diminuição do analfabetismo digital. Ela ressaltou a participação e o auxílio do bibliotecário nessa mudança.
A professora também citou como exemplo do poder de mudança social da biblioteca o morador de rua de Pernambuco que, ao utilizar uma instituição pública para estudar, conseguiu concluir o ensino regular e ainda passar em um concurso público.
A presidente do Conselho Federal de Biblioteconomia, Regina Célia de Sousa, afirmou que uma das principais ideias a ser desmistificadas é a de que a biblioteca é só um armazém de livros ou depositório de acervo bibliográfico. Segundo disse, sem pessoal qualificado para transformar conteúdos em bens culturais a ser ofertados continua e sistematicamente a seus usuários, por meio de serviços de consulta e empréstimo, as bibliotecas não contribuirão para a democratização da cultura e do conhecimento e a formação dos cidadãos.
Um importante passo para garantir o acesso à leitura e à cultura pode ser dado com a discussão do Plano Nacional de Livro e Leitura, projeto retomado pelo governo federal que pretende democratizar o acesso aos livros, defendeu José Castilho Marques Neto, secretário executivo do Programa Nacional do Livro e da Leitura do Ministério da Cultura. Para isso, além de bibliotecas públicas estruturadas, com acervo e instalações adequadas, são necessários profissionais que farão a mediação, apresentando o conhecimento ali guardado aos usuários, dando à biblioteca seu sentido pleno.

- O bibliotecário necessita ser mediador da leitura – defendeu.

19 de out. de 2013

Emprego no setor cultural cai 15,6%


Fonte: Estado de S. Paulo, Caderno 2. Data: 19/10/2013.

Autoria: Luciana Nunes Leal.

Desde a crise de 2009, a Cultura vem perdendo espaço na economia nacional e o cenário é mais preocupante na geração de emprego. Entre 2009 e 2012, o número de pessoas ocupadas no setor cultural caiu 15,6%, enquanto na economia geral a quantidade de trabalhadores subiu 2,2%. O resultado é o oposto do que a Cultura registrou entre 2007 e 2009, quando o crescimento dos empregados no setor superou o desempenho nacional. Há avanços em relação aos gastos públicos, mas muito lentos: apenas 0,3% do total de despesas da União, Estados e municípios em 2010 foram destinados à Cultura, proporção pouco maior que o 0,25% de 2007.

Os dados estão na terceira edição da pesquisa Sistema de Informações e Indicadores Culturais, divulgada ontem pelo IBGE, que consultou cinco diferentes bases de dados. A radiografia da cultura como atividade econômica mostra que, em 2012, havia 3,6 milhões de empregados em atividades culturais, 673 mil a menos que em 2009.

Presente à cerimônia de divulgação do estudo, na manhã de ontem, o secretário executivo do Ministério da Cultura, Marcelo Pedroso, disse que a Cultura é mais sensível aos percalços da economia, mas apostou na recuperação do setor a partir de 2013 e nos efeitos positivos do Vale-Cultura, que começa a funcionar este mês. "O período retratado na pesquisa foi de crise mais intensa, e os empreendimentos culturais são mais suscetíveis a crises desse tipo, A Cultura cresce, mesmo não sendo no mesmo ritmo que a economia geral. O Vale-Cultura vai propiciar muitas mudanças, aumentar a demanda, criar novos negócios, oportunidades. E difícil apontar qual é a proporção ideal de gastos públicos em Cultura, mas o importante é o crescimento constante do investimento", disse Pedroso. O Vale-Cultura poderá ser usado por 42 milhões de trabalhadores contratados em regime de CLT e prevê crédito mensal de R$ 50.

Em 2010, o total de gastos públicos em Cultura foi de R$ 7,25 bilhões e de R$ 4,41 bilhões em 2007. Descontada a inflação do período, houve aumento de 41%. Os municípios têm os maiores gastos em Cultura, chegando a 1,1%. Os Estados reservam para a Cultura 0,5% das despesas e a União, só 0,1%, Os gastos somam investimentos, custeio (manutenção, pagamentos de fornecedores, etc.) e folhas de pagamento. A despesa per capita com Cultura tem crescido ano a ano, segundo o IBGE. Em 2010,chegou a R$ 38,04 por pessoa, quase três vezes o valor de 2003, de R$ 12,9 per capita.

O estudo informa que uma possibilidade para a redução das pessoas ocupadas no setor cultural é que os trabalhadores tenham encontrado emprego formal em outras áreas da economia. O número de trabalhadores em Cultura sem carteira assinada caiu 8% entre 2009 e 2012 enquanto a queda dos trabalhadores formais foi de 4%. Os dados não permitem saber que setores absorveram os ex-empregados na Cultura e se houve formalização desses profissionais.

"A qualidade do emprego na Cultura melhorou", resume o coordenador de Trabalho e Renda do IBGE, Cimar Azeredo. "É possível que trabalhadores em Cultura, no período mais agudo, tenham procurado outra forma de garantir remuneração. Acredito que a Cultura deixou de ser a atividade principal, mas não que esses profissionais deixaram de atuar em Cultura", diz Pedroso.

A Cultura cresceu em ritmo mais lento que a economia geral na criação de empresas e geração de receita. Em 2010, havia 400 mil empresas e outras organizações (órgãos públicos e instituições sem fins lucrativos) no setor cultural, 9% a mais que em 2007. O número total de empresas e organizações formais cresceu 16% no período. Em 2007, 8,3% das empresas formais do País eram do setor cultural, proporção que caiu para 7,8% em 2012. Mais da metade (55,5%) é do setor de serviços, 39,7% do comércio e 4,8% da indústria.

A Cultura perdeu espaço também na geração de receita. Em 2007, as empresas do setor cultural geraram 8,9% de toda a receita do País. Em 2010, a participação caiu para 8,3%.

● Números

0,3% foi o valor do total de despesas da União, Estados e municípios destinados à Cultura em 2010.

8,3% foi a receita gerada pelas empresas do setor cultural em 2010.

R$ 38,04 foi a despesa per capita com Cultura em 2010 - quase três vezes o valor de 2003.

21 de jun. de 2013

Biblioteca com padrão FIFA

No início de junho de 2013 começaram na capital gaúcha e depois, paulatinamente foi expandida para outras capitais, uma série de manifestações contra reajustes das tarifas dos transportes urbanos. Essas ações configuraram um movimento reivindicatório de abrangência nacional, que contempla uma pauta que passou a incluir inúmeras reivindicações. As principais delas são:
a)                   Melhoria no sistema de saúde, pois é comum nos hospitais públicos a existência de longas filas para o atendimento do cidadão e à falta de leitos hospitalares, ocorrendo casos de pacientes ficarem nos corredores dos hospitais, sendo que muitos deles no chão.
b)                 Melhoria na educação, com melhor estrutura física das escolas, melhores salários para os professores, acesso à internet, existência de bibliotecas.
c)                   Melhoria na segurança; nos últimos tempos têm ocorrido muitas mortes cometidas por jovens que ficam impunes e estão abrigados por uma legislação que dá liberdade a esses infratores quando atingem a maioridade, no caso 18 anos.
d)                  Gastos nababescos com estádios de futebol para a Copa do Mundo – no caso de Brasília os custos finais devem atingir um bilhão de dólares (sim, de dólares);
e)                   Fim da corrupção -- agora uma praga quase que generalizada nos três níveis de governos. Em quase todos os lugares devem existir processos contra a corrupção inconclusos ou que se arrastam por muito tempo.
f)                   A prisão dos envolvidos com o escândalo do grupo dos “Mensaleiros”, integrado por mais de trinta pessoas, entre elas ex-ministro e parlamentares. Esse processo vem se arrastando por mais de sete anos no Supremo Tribunal Federal e alguns dos envolvidos voltaram a ocupar cargos importantes devido a brechas na legislação.
g)                  A não aprovação da Proposta de Emenda Constitucional 37 (PEC 37) que reduz os poderes de investigação do Ministério Público, ficando a Polícia Federal – supervisionada pelo Poder Executivo – como única responsável por esse tipo de investigação.
O movimento está crescendo e ontem, 20 de junho, aconteceram passeatas em mais de 120 cidades brasileiras, trazendo às ruas quase dois milhões de pessoas. Em algumas dessas manifestações ocorreram violência – sempre existe uma minoria que procura provocar incêndios, roubar lojas, destruir placas de trânsito, entre outras coisas. O certo é que não se sabe como isto tudo irá terminar.
Os manifestantes são em sua maioria jovens estudantes que defende redução de tarifas ou mesmo eliminação delas do transporte público das cidades. A eles se somaram integrantes de outros movimentos sociais e pessoas comuns; quase todos usam as redes sociais como ferramentas de mobilização e divulgação.
É comum ver na imprensa que o “o Brasil agora acordou” e que os manifestantes desejam mudá-lo – vale lembrar que o Hino Nacional tem uma estrofe que diz que o país está “deitado eternamente em berço esplêndido”. Será que o gigante está acordando, meio zonzo com o cheiro do gás lacrimogêneo?
Neste contexto de demandas sociais creio que os bibliotecários, arquivistas, museólogos e outros profissionais da informação poderiam engrossar as passeatas, levando cartazes contendo dizeres como: “Queremos bibliotecas com o padrão FIFA”, “O Brasil quer arquivos com o padrão FIFA”, ou mesmo, “Agora é hora de museus com padrão FIFA”.
Gostemos ou não este parece ser um momento histórico.


Murilo Cunha

21 de out. de 2012

Petição pública: mudanças no setor do livro, leitura e literatura

Abaixo-assinado CARTA ABERTA À PRESIDENTA DILMA ROUSSEFF O SETOR DO LIVRO, LEITURA E LITERATURA PEDE PROVIDÊNCIAS

Para:Presidenta da República Federativa do Brasil

Senhora Presidenta,

Os que assinam esta Carta Aberta o fazem por entender que se esgotaram todas as possibilidades de mudanças nos rumos das políticas voltadas para a área do livro, leitura e literatura no âmbito do MinC (Ministério da Cultura) e FBN (Fundação Biblioteca Nacional). Para nós, é necessário que a Senhora, como leitora e incentivadora destas políticas, conheça de perto o real quadro deste importante e fundamental setor para a construção de uma nação realmente desenvolvida e independente.

Antes de expor nossos argumentos, é importante salientar que as pessoas que assinam este documento militam na área de cultura e foram, em sua maioria, defensoras de sua eleição. O principal motivo que nos levou a apoiá-la, além de outros avanços nas diversas áreas do país, foi o gigantesco salto dado pelo Brasil na construção de uma política de cultura como política de Estado nos dois governos Lula e, mais especificamente, os enormes passos dados na construção de uma política voltada para o livro, leitura e literatura, visando responder a enorme dívida social que o Estado Brasileiro tem com sua sociedade: o nosso grande déficit de leitores.

A Senhora representava a manutenção deste projeto e sua grande possibilidade de fazê-lo avançar ainda mais. Estávamos todos entusiasmados com o momento que o país vivia e confiantes de que o projeto político-cultural seria mantido. Sabíamos que ajustes eram necessários, mas também sabíamos que a manutenção da base e do caminho trilhado até sua posse seria o mais coerente.

Senhora Presidenta, não vamos aqui detalhar os problemas enfrentados na gestão da ministra Ana de Holanda, que vem recebendo muitas críticas de setores que sempre apoiaram os rumos das políticas culturais do Governo Federal desde a posse do ex-presidente Lula. Vamos nos limitar a analisar as questões relacionadas às políticas para o livro, leitura e literatura.

Desgoverno e propaganda
Senhora Presidenta, todo o problema na área do livro, leitura e literatura começou com a intervenção anti-democrática do senhor Galeno Amorim, nomeado presidente da FBN no início de 2011, que se dedicou a desmontar estruturas importantes em nosso setor, a desmobilizar o Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literatura e a retroceder em conquistas fundamentais, tudo em função de uma desastrosa centralização das políticas na Fundação Biblioteca Nacional.

Alertas para os problemas que trariam estas manobras, diversas moções e recomendações, além de correspondências encaminhadas à ministra Ana de Holanda, e ao presidente da FBN, Galeno Amorim, foram redigidas e manifestadas no âmbito do Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literatura e do Conselho Nacional de Política Cultural, instâncias do MinC para a participação da sociedade civil. Infelizmente, estas manifestações foram ignoradas.

A centralização das políticas para o setor em um único organismo, a Fundação Biblioteca Nacional, provocou o maior retrocesso que a área viu desde que se iniciou a implantação das políticas públicas para o livro, leitura e literatura. A Diretoria do Livro, Leitura e Literatura - DLLL, que funcionava vinculada à Secretaria de Articulação Institucional do MinC, passou a ser subordinada à FBN e iniciou-se um claro processo de desmonte de sua estrutura.

É preciso salientar que a conquista desta diretoria na estrutura do MinC representou grandes avanços para o setor. Sua mudança de subordinação administrativa gerou um intencional rebatimento político negativo com a paralisia de vários projetos como o PNLL (Plano Nacional do Livro e Leitura) e de uma mudança prejudicial no foco das políticas: antes voltadas para a formação de leitores e agora curvada ao comércio de livros, para atender alguns interesses imediatos do mercado editorial.

Esta mudança de foco atende a demandas antigas do mercado, mas é contraditória à medida que reduz os investimentos nos eixos estruturantes das políticas do setor: a criação literária e a formação de leitores, reduzindo o papel do Estado a agenciar políticas para a formação de uma imensa massa de novos consumidores, atendendo ao apetite desmedido do mercado.

Não temos posição contrária a políticas que dinamizem a indústria e o mercado editorial. O que questionamos é o que se nos revela como miopia política pela inversão de valores: a priorização dos interesses imediatos do mercado, em detrimento justamente das dimensões que dão lastro, sentido e qualidade às políticas públicas nacionais do livro, leitura e literatura: a Formação de Leitores. O que questionamos é a ênfase no livro como mera mercadoria e no leitor como simples consumidor desta mercadoria – e não como cidadão com direito universal de acesso ao conhecimento.

Para comprovar esta mudança de foco, fizemos um rápido levantamento dos investimentos feitos em 2011 e algumas comparações com 2010:

A FBN/MinC investiu no ano passado cerca de R$ 40 milhões no Livro Popular, um projeto para resolver as questões impostas pelo mercado, mais cerca de R$ 4 milhões em feiras do livro, contra apenas cerca R$ 6 milhões em leitura e pouco mais de R$ 2 milhões em fomento à literatura, ainda assim, parcialmente executadas e às custas do congelamento de políticas de sucesso implementadas pelo próprio MinC, e seus órgãos subordinados, como a Funarte, de 2007 para cá.

Em 2010 estavam aprovados e orçados no Fundo Nacional de Cultura (com editais com pareceres favoráveis) R$ 30 milhões para a área do livro, leitura e literatura. O único edital executado foi o de R$ 3 milhões para as pequenas e médias livrarias (que se insere nas demandas do mercado, apesar de o defendermos como de extrema importância, pois está vinculado à promoção cultural nestes espaços, que enfrentam a concorrência desigual das grandes redes). Os demais editais, todos voltados para a formação de leitores, mediadores e área literária foram ignorados pela nova gestão da FBN.

Vale ressaltar que o edital das livrarias foi aberto antes de o senhor Galeno Amorim assumir a FBN (em janeiro de 2011) e concluído a partir de uma pressão exercida pelo Colegiado, demanda assumida pelo secretário de Articulação Institucional do MinC, Luiz Roberto Peixe, e pelo então diretor da Diretoria do Livro, Leitura e Literatura, Fabiano Santos Piúba.

Segundo dados da própria FBN, é possível apurar os seguintes números orçados para a ação das políticas do livro, leitura e literatura em 2011, ainda que não saibamos da sua real execução:

LIVRO
- Edital para compra do Livro Popular: R$ 36,9 milhões
- Gestão do Livro Popular: R$ 1,5 milhão
- Circuito de Feira de Livros: R$ 3,3 milhões
- Gestão e execução do programa Livraria Popular: R$ 2 milhões
- Feira de Frankfurt: R$ 1 milhão
Total: R$ 44,79 milhões

Cabe ressaltar um dado grave: o montante destinado ao Edital de Compra dos Livros Populares é resultado de uma emenda parlamentar do deputado Angelo Vanhoni (PT-PR) que deveria ser executada com a finalidade de modernizar e implantar bibliotecas.

BIBLIOTECAS
- Edital Mais Cultura de Apoio a Bibliotecas: R$ 2,065 milhões
- Modernização da Biblioteca Estadual do RS: R$ 2,362 milhões
- Kits de Modernização de Bibliotecas Municipais: R$ 4,319 milhões
Total: R$ 8,746 milhões

LITERATURA
- Internacionalização: R$ 1 milhão
- Bolsas de Tradução: R$ 256 mil
- Caravana de escritores: R$ 1 milhão
Total: R$ 2,256 milhão
1. O presidente da FBN chegou a anunciar R$ 1 milhão para o programa de tradução, mas foram investidos apenas R$ 256 mil.
2. Não há clareza sobre o que significa o item orçamentário “Internacionalização”
3. O programa de Caravana de Escritores ainda não saiu do papel.
Ou seja, o investimento real em literatura, na verdade, se resumiu a pouco mais de R$ 1 milhão.

LEITURA
- PROLER (Cidadania e Leitura): R$ 2,1 milhões
- Agentes de Leitura: R$ 2,84 milhões
- PROLER (Formação de mediadores): R$ 912 mil
- Pontos de Leitura/Quilombolas: R$ 300 mil
Total: R$ 6,152 milhões

Vale lembrar que:

1. As ações do ProLer foram orçadas em 2010.

2. No programa Agentes de Leitura, havia R$ 5 milhões aprovados pela Comissão Nacional do FNC, mas a direção da FBN retirou R$ 2,16 milhões para o Programa Livro Popular, reduzindo para quase a metade as possibilidades de investimentos no principal programa formador de leitores do país.

3. A FBN coloca na conta cerca de R$ 7 milhões de restos a pagar de 2010 do Mais Cultura do MinC para convênios com os Estados e com as Prefeituras.

O resumo, SENHORA PRESIDENTA, é que para 2011 foram prometidos os seguintes blocos de investimentos, ressaltamos, sem o aval do Colegiado Setorial, e que caracteriza bem a mudança de foco do MinC/FBN nas políticas do livro, leitura e literatura:

- Livros: R$ 44.792.000,00
- Bibliotecas: R$ 8.746.000,00
- Literatura: R$ 2.256.000,00
- Leitura: R$ 6.152.000,00

Em torno de 76% voltados para ações de livros e em torno de 60% desse orçamento para a compra exclusiva de livros. A justificativa para os investimentos em compra de livros pode até ser a de que beneficiarão as bibliotecas, mas uma rápida análise comprova que a necessidade de nossas bibliotecas está muito além da simples renovação de seus acervos, sendo muito maior a necessidade de qualificação e ampliação de seus quadros profissionais (mediadores de leitura), a modernização de seus espaços, a presença de escritores dialogando diretamente com o público e sua transformação em verdadeiros centros culturais e não apenas meros depósitos de livros. Cabe ressaltar ainda que esta compra de livros populares, em boa parte, é feita a partir de estoques não vendidos das editoras (ou seja, edições antigas).

Outro investimento paralisado em 2011 (este não se trata de valores, mas sim de vontade política), definido como prioridade pela no processo da II Conferência Nacional de Cultura e pelo Colegiado Setorial, trata da institucionalização das Políticas:

- Instituto Nacional de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas
- Lei do Plano Nacional de Livro e Leitura
- Fundo Setorial Pró-Leitura

Há ainda os editais não executados em 2011, previstos no Fundo Nacional de Cultura em 2010:
1) Edital Todos pela Leitura - R$ 11 milhões
2) Edital Cidades de Leitores – R$ 3 milhões
3) Edital de Bolsa de Criação, Difusão, Formação e Intercâmbio Literário - R$ 10 milhões
4) Edital de Produção e Circulação de Periódicos Literários - R$ 3 milhões

Todos estes investimentos garantiriam R$ 14 milhões a mais nos programas de formação de leitores e outros R$ 13 milhões na área de literatura. A FBN/MinC subtraiu esses recursos para direcioná-los todos a compra de livros.

Vale lembrar ainda neste item, que em 2010 foram investidos R$ 4 milhões da Funarte nas Bolsas de Criação e Circulação Literária, programas que foram interrompidos em 2011 (ou seja, mais uma redução no investimento em literatura), com a promessa de retornarem em 2012. Este investimento foi interrompido por interferência direta da presidência da FBN, que gestionou para que estas bolsas fossem retiradas da Funarte.

PNLL – Plano Nacional do Livro e da Leitura
O PNLL é nosso documento de referência, não só por consolidar os grandes eixos do corpo das políticas públicas do livro, leitura, literatura e bibliotecas, mas por ser fruto do esforço dialogado entre governo e sociedade civil, e por ter sido, senão o primeiro, um documento de referência nas políticas culturais, inspirador para outros setores da cultura desencadearem o processo de elaboração de seus respectivos Planos.

A sistematização desse rico processo e seu grau de reconhecimento está bem posta no prefácio do José Castilho Marques Neto, ex-secretário Executivo do PNLL, na publicação PNLL Textos e História: 2006-2010, quando afirma que:
“Com o PNLL e seu desdobramento nos Planos Estaduais e Planos Municipais de Livro e Leitura, que já começam a acontecer desde 2009 em muitos cantos do país, o Brasil pode afirmar que está próximo de conquistar uma Política de Estado para a leitura.

O Brasil alcançou com o PNLL um patamar político e conceitual que é imprescindível para se consolidar uma Política de Estado para o setor, isto é, o desejado consenso entre governo e sociedade tanto no diagnóstico do que é preciso fazer quanto nos objetivos a alcançar para se tornar um país de leitores.

A obtenção deste consenso foi o que mais projetou o PNLL para os países ibero-americanos, tornando-o referência para muitos dos planos de leitura que também se desenvolvem nos países irmãos do continente americano e no mundo ibérico.
Os entrelaçamentos conceituais e práticos da ação do Estado com a sociedade e a indissociabilidade entre a cultura e a educação na formação de leitores são pontos referenciais que o PNLL do Brasil possui e foram intensamente debatidos e assimilados como necessidade da política pública de leitura em inúmeros foros internacionais”.

O PNLL está paralisado desde a saída do então secretário-executivo, José Castilho, em abril de 2011, o que torna o quadro das políticas para o livro, leitura e literatura ainda mais desalentador. Somente em dezembro de 2011 foi nomeada a professora Maria Antonieta Cunha, para substituí-lo. Para piorar a situação, dois meses depois Antonieta foi anunciada como nova titular da DLLL, deixando novamente acéfala a direção do PNLL.

Com a demora na nomeação da substituta do Castilho, a insegurança política gerada e o desmantelamento da equipe, o Plano ficou um ano praticamente paralisado. Em 2010 havia cerca de 700 municípios cadastrados. Além de não haver registro confiável da ampliação dos planos municipais em 2011, o DLLL não consegue monitorar o andamento dos Planos municipais e estaduais em curso.
O aspecto mais transparente desta paralisia pode ser resumido em três exemplos: desde abril de 2011 o site do PNLL não é atualizado, desde dezembro de 2010 não é expedido o boletim semanal do Plano e em 2010 foram realizados quatro cursos para gestores de PELLs e PMLLs, enquanto em 2011 somente um até março e outro iniciado em abril.

AGENTES DE LEITURA
Em 2011 foram formados 164 agentes de leitura nos municípios de São Bernardo do Campo (SP), Nilópolis (RJ) e Canoas (RS).
Os dados do MinC informam que até 2010 existiam convênios que garantiam a ação de 3.877 agentes de leitura em todo o país, divididos entre 9 governos estaduais, 16 municipais e três consórcios intermunicipais.
Fundo Pró-Leitura e Sistema Nacional de Bibliotecas
Outra situação grave, que vale ressaltar sempre, é o completo desaparecimento de pauta do Projeto de lei de criação do Fundo Pró-Leitura (projeto que vinha tramitando com pareceres técnicos e jurídicos consolidados dos ministérios da Cultura, Educação, Planejamento, mas sobretudo da Fazenda, que redigiu a forma e estrutura da Contribuição Social).

Esse projeto surgiu a partir da desoneração fiscal em 2004, pelo Governo Lula, do PIS/COFINS/PASEP para editoras, livrarias e distribuidoras. Em contrapartida, estes setores do mercado editorial se comprometeram e assinaram documentos em torno do compromisso de contribuir com 1% do faturamento anual para o Fundo Pró-Leitura. Os impostos que foram reduzidos a alíquota zero pelo Governo Federal impactavam em média 9% do faturamento da cadeia produtiva. Este processo nunca foi concluído, sempre sofreu oposição do setor produtivo e, coincidentemente com a entrada do referido atual presidente da FBN no gerenciamento das políticas, o debate desapareceu.

Por último, neste arrazoado de informações, também ficou esquecido o projeto de fortalecimento ou revitalização do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP). Apesar dos anúncios de investimentos em bibliotecas, o cenário beira o descaso quando se trata de bibliotecas municipais. Basta analisar o Censo Nacional de Bibliotecas Públicas.

Senhora Presidenta,
quando sistematizamos as informações referentes ao exercício de 2011, fica claro quais foram as prioridades desta gestão. Não somos oposição a este governo, muito pelo contrário, trabalhamos muito, vidas inteiras, para ajudar este projeto a ser implementado no País. Por isso é muito triste ver os rumos tomados pelo MinC/FBN em sua gestão.

É grande a ideia do PNLL: construir programas de base para a formação de leitores, valorizando os agentes de leitura e a centralidade da biblioteca; fomentando a nossa produção literária e a formação de educadores-leitores. O avanço seria inestimável se tudo isso continuasse no mesmo rumo, e o setor do livro, leitura e literatura daria uma contribuição imensa para a formação da base da nação que tanto sonhamos e tanto desejamos.

Sem o devido investimento em leitores, literatura e livros, jamais daremos o salto de que somos responsáveis: a proteção, garantia e efetivação do Direito Humano de toda a população brasileira ao seu pleno desenvolvimento cultural, educacional, econômico e social, onde o desenvolvimento das práticas leitoras exerce um papel estruturante.

Antônio Cândido, um dos nossos grandes intelectuais, que tanto reflete sobre a literatura como Direito Humano, afirma que esta é “fator indispensável de humanização” e “confirma o homem (o ser) na sua humanidade”, palavras que dialogam com as de Vargas Llosa, quando afirma que “a cultura, a literatura, as artes, a filosofia, desanimalizam os seres humanos, ampliam extraordinariamente seu horizonte vital, atiçam sua curiosidade, sua sensibilidade, sua fantasia, seus apetites, seus sonhos, e os tornam mais porosos à amizade e ao diálogo”.

Portanto, a prioridade na consolidação da política pública do livro, leitura e literatura, como política de Estado e com foco primordial na formação de leitores, na qualificação/ampliação de seus espaços e profissionais e no fomento à criação literária, é fundamental para a formação de sujeitos atuantes na construção de um modelo de desenvolvimento sustentável, pautado nos princípios da justiça e da igualdade.

Por isso, Senhora Presidenta, é que apelamos para sua atenção ao assunto, já que, como salientamos no início deste documento, todas as tentativas de diálogo da sociedade civil com o Ministério da Cultura resultaram em frustração e desmonte de um trabalho construído ao longo de anos.

Nossas melhores saudações democráticas,

Nilton Bobato, escritor e professor. Representante da Região Sul no Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literatura, e membro titular do Conselho Nacional de Política Cultural/CNPC.
Edgar Borges, escritor e jornalista. Representante da Região Norte no Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literatura.
Ademir Assunção, escritor e jornalista. Representante dos escritores (Cadeia Criativa) no Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literatura
Rogério Barata, pedagogo, formador de professores-leitores, contador de histórias. Representante da Cadeia Mediadora no Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literatura.
Mileide Flores, livreira. Representante da Região Nordeste no Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literatura, e coordenadora do Fórum de Literatura, Livro e Leitura do Ceará.
João Castro, poeta. Representante dos escritores (Cadeia Criativa) no Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literatura e presidente da União dos Escritores da Amazônia.
Izaura Ribeiro Franco, escritora e editora. Representante da Região Centro-Oeste no Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literatura.
Nêmora Rodrigues, bibliotecária. Representante da Cadeia Mediadora no Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literatura, e presidente do Conselho Federal de Biblioteconomia.
Almir Mota, escritor, editor e produtor cultural. Representante dos escritores (Cadeia Criativa) no Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literatura.
Jasmine Malta, professora mestra da Universidade Federal do Piauí. Membro do Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literatura – Cadeia Produtiva.
Kelsen Bravos, professor, editor e escritor. Membro do Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literatura – Cadeia Mediadora.
Benita Prieto, contadora de histórias e produtora cultural. Membro do Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literatura – Cadeia Mediadora.

Os signatários
O apoio à petição pode ser feito no URL:
http://www.peticaopublica.com.br/?pi=P2012N23373