17 de mar de 2013

Biblioteca Schneerson não sairá da Russia


Fonte: Voz da Rússia. Data: 27/02/2013.


Autora: Liubov Kurianova.

Deste modo, a "guerra dos livros" continua, tendo criado uma série de problemas candentes. O movimento judaico ortodoxo Agudas Chassidei Chabad declinou a proposta formulada por Moscou visando abrir acesso aos livros que constituem o núcleo da Biblioteca Schneerson e que são acessíveis aos leitores que frequentam a Biblioteca Nacional. Todavia, voltam a surgir apelos de devolver a coletânea aos judeus do movimento chassíde em Nova York.

Importa recordar que há pouco tempo o Tribunal do distrito norte-americano Columbia obrigou o governo russo a pagar multa no valor de 50 mil dólares por cada dia de permanência da coleção Schneerson fora dos EUA. O Presidente Putin propôs, por seu turno, entregar os livros ao Museu Judaico e ao Centro de Tolerância. O chefe de Estado russo lamentou o fato de a discussão ter passado para o plano de confrontação, realçando que a coletânea não pertence a só uma comunidade judaica.

"Ela pertence também à comunidade judaica russa e, antes de mais nada, ao Estado russo em geral. Se atendermos ao pedido sobre a entrega voluntária dos livros, vamos abrir, de fato, a Caixa de Pandora. A satisfação da demanda dessas provocará uma reação em cadeia."

A Biblioteca Schneerson abrange um vasto espectro de obras de literatura religiosa num total de 12 mil livros e 50 manuscritos, selecionados a partir de 1772 por rabis, residentes outrora na localidade Lubavichi do distrito de Mogilev do Império Russo (atualmente, a região de Smolensk). No auge da Primeira Guerra Mundial, nomeadamente em 1915, o sexto rabi local, Yosef Schneerson, entregou uma parte da coletânea para o armazenamento em Moscou que, em 1918, terá sido abrangida pela campanha de nacionalização. Outra parte – cerca de 25 mil páginas manuscritas – foi levada por Schneerson para Riga, na Letônia, e depois para a Polônia. Foi lá que ela, em 1939, parou nas mãos dos nazistas e, mais tarde, passou para a Alemanha. Após o colapso da Alemanha Nazista, os arquivos foram levados para Moscou. O rabi morreu em 1950 sem ter deixado quaisquer indicações concretas sobre o seu futuro destino.

A questão tornou a ganhar vulto depois de o juiz federal de Washington, Royce Lambert, deliberou, em agosto de 2010, devolver os livros da coletânea Schneerson. Passados, dois anos, ele decidiu impor a multa mencionada acima.

O posicionamento oficial assumido por Moscou foi tornado público, em entrevista televisiva, pelo ministro russo da Cultura, Vladimir Medinsky.

"Não se sabe por que a Rússia deve devolver a coletânea. Os adeptos do judaísmo chassídico se encontram espalhados pelo mundo inteiro, incluindo a Rússia. Seguindo tal lógica de raciocínio, não será necessário devolver esfinges e desmantelar as estelas do centro de Paris? Tal descompostura afetará o sistema de valores culturais, por isso as exigências da parte norte-americana são absurdas."

Bem ou mal, o MRE da Rússia denunciou as pretensões, tendo qualificado as deliberações do tribunal como "infundadas em termos jurídicos". Os diplomatas russos sugeriram ainda ao Ministério da Cultura da Rússia e à Biblioteca Nacional multar a Biblioteca do Congresso dos EUA por sete livros da coletânea Schneerson entregados a Washington em 1994 para o uso temporário.

Enquanto isso, o Museu Metropolitano de Arte em Nova York cancelou o envio para Moscou de um lote de 35 obras do decorador-couturier francês, Paul Poiret, que devia ser exposto no Kremlin. Reagindo à "moratória cultural", os museus russos também não se apressam a promover exposições dos EUA. As conversações estão marcando passo ao contrário da campanha de especulações muito bem sucedida. O rabi lendário Schneerson ficaria atônito se tivesse sabido do tamanho escândalo no século XXI à volta da sua coletânea.

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