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6 de set. de 2016

Darnton e Manguel discutem censura e bibliotecas

Fonte original: O Estado de S. Paulo. Data: 01/09/2016.
Fonte: Isto É.
Dois dos maiores especialistas em leitura do mundo – Alberto Manguel e Robert Darnton – fizeram um encontro memorável na noite de terça-feira, 30, em São Paulo. No Brasil para celebrar os 30 anos da Companhia das Letras, editora que publica a obra de ambos por aqui, eles conversaram com desenvoltura sobre censura, bibliotecas, Borges e livro digital. O encontro no Sesc Vila Mariana foi mediado por Sérgio Rodrigues.
Darnton – americano, diretor emérito da maior biblioteca universitária do mundo, Harvard, e autor do recente Censores em Ação – começou o encontro analisando a censura a partir do século 18 (“período em que passei a maior parte da minha vida”). “A censura faz leitores lerem entrelinhas. Isso significa que devemos ter? Claro que não!” No seu estudo dos 1700, ele observou que a censura tinha um significado diferente. “Não era apenas uma supressão do pensamento, mas também um selo de aprovação. ”
Diretor da Biblioteca Nacional da Argentina, Manguel comentou que a história da literatura corre em paralelo com a história da censura. “É inesperado, porque os censores agiam como críticos”, compara.
O encontro foi realmente uma conversa entre os dois intelectuais: um dos vários momentos de interação ocorreu quando eles discutiram a catalogação de bibliotecas, tomando por base o pesadelo que é a Biblioteca de Babel de Borges, infinita. “É um trato humano fundamental: distinguir coisas em categorias. Mas isso significa restringir? Eu acredito que não”, disse Darnton. Manguel discordou sutilmente. “Não há jeito de inventar um sumário honesto que encamparia todos os significados. Eco diz que os limites da interpretação coincidem com o senso comum, que varia com cada leitor e com cada leitura”, comparou. E Darnton rebateu: “Você poderia dizer que cada palavra que dizemos é filtrada pela consciência, bem como os gestos, então tudo é censura. Mas se tudo é censura, nada é. Não devemos ‘trivializar’ o conceito de censura, em respeito aos escritores que sofreram”.
O americano demonstrou seu conhecido otimismo em relação ao livro digital, salientando seu projeto de digitalizar a biblioteca de Harvard. “Acho que estamos nos movendo para um estado da cultura em que todo o conhecimento vai estar disponível para todos os seres humanos. ”

O próximo evento de comemoração da editora ocorre no dia 26 de setembro, no Rio, com Mia Couto e Maria Bethânia. No dia 28, o moçambicano também vem a São Paulo conversar com Julián Fuks. No dia 25 de outubro, Ian McEwan e David Grossman debatem literatura e ética no Sesc Pinheiros. 

17 de jul. de 2016

Obras raras: Index Librorum Prohibitorum

Catálogo da Nanoexposição n. 6:
Livros proibidos: 50 anos do fim do index librorum prohibitorum

Referência:

Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Biblioteca Central. Departamento de Obras Raras. Livros proibidos : 50 anos do fim do Index Librorum Prohibitorum. Nanoexposição, 6 Curadoria: Ana Lucia de Macedo Rüdiger, Eugenio Hansen, OFS Fotografia: Rochele Zandavalli/UFRGS Obras raras da Coleção Eichemberg Porto Alegre julho 2016.




24 de dez. de 2014

Supremo impede censura à obra de Monteiro Lobato

O ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou seguimento (julgou inviável) ao Mandado de Segurança (MS 30952) em que o Instituto de Advocacia Racial e Ambiental (IARA) e o professor Antônio Gomes da Costa Neto pediam a anulação de parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) que, segundo os autores, teria liberado a adoção nas escolas do livro "Caçadas de Pedrinho", de Monteiro Lobato, cujo conteúdo faria "referências ao negro com estereótipos fortemente carregados de elementos racistas". Segundo o ministro, o STF não tem competência para apreciar mandado de segurança impetrado contra o ato do ministro da Educação que homologou parecer do Conselho Nacional de Educação pela liberação do livro, sem nota explicativa sobre racismo.
No mandado de segurança, o instituto e o professor pretendiam que fosse anulado o Parecer nº 6/2011, do CNE, que reexaminou e substituiu o Parecer nº 15/2010, que continha as orientações defendidas pelos impetrantes do MS. O parecer 15/2010 determinava que o livro fosse adotado somente com a inclusão de uma nota explicativa sobre estudos "que discutam a presença de estereótipos raciais na literatura" e com a imediata formação e capacitação de educadores para que a obra fosse utilizada "de forma adequada na educação básica".
Em sua decisão, o ministro revela que o Supremo não é competente para julgar o caso. "Embora tenham feito referência a pedido de avocação [de processo administrativo] formulado à presidente da República, para justificar a competência do Supremo Tribunal Federal", em uma leitura atenta do pedido, "constata-se, de maneira inequívoca, que a real e única intenção dos impetrantes é a de seja reconhecida a nulidade do Parecer nº 15/2010, do Conselho Federal de Educação".
Além de citar legislação que prevê a avocação de determinado assunto pela Presidência da República somente em caráter excepcional e por relevantes motivos de interesse público (artigos 170 do Decreto-lei 200/1967 e 15 da Lei 9.784/1999), o relator do processo acrescentou que, conforme ressaltado pelo Ministério Público Federal (MPF) em parecer, a matéria foi apreciada por diversas instâncias administrativas, "não se justificando, a princípio, a atuação da presidente da República". Ele complementou que há jurisprudência no STF "a respeito da ausência de obrigação no deferimento de pedido de avocação".
Por fim, o ministro lembrou que a Constituição Federal (artigo 102, inciso I) determina que o Supremo tem competência para julgar mandados de segurança conta atos do presidente da República, das Mesas da Câmara e do Senado Federal, do Tribunal de Contas da União (TCU), do procurador-geral da República, e do próprio Supremo. "Evidente, assim, a incompetência desta Corte para a apreciação de mandamus impetrado contra ato do Ministro da Educação que homologou parecer do CNE", concluiu.
Processos relacionados: MS 30952

Fonte: Supremo Tribunal Federal.

24 de set. de 2012

Bom-mocismo corrói a literatura


Fonte: Folha de S. Paulo. Data: 24/09/2012.

Autor: Marco Rodrigo Almeida.

Em 2010, um parecer do CNE (Conselho Nacional de Educação, órgão ligado ao Ministério da Educação) recomendava a retirada da obra publicada em 1933 do Programa Nacional Biblioteca na Escola. A alegação é que o livro é racista na abordagem da personagem Tia Nastácia e de animais como os macacos. [...] "Acho que existe um veneno que está corroendo a literatura infantil -o bom-mocismo. Literatura não é pedagogia, é arte", diz Ruth Rocha. A escritora conta que, da sanha do politicamente correto, nem mesmo o folclore tem escapado. Uma editora, por exemplo, chegou a sugerir cortar o cachimbo do Saci de um de seus livros. [...] Rocha diz que não há uma fórmula para se fazer um bom livro, mas que é fácil perceber quais receitas não seguir."O livro não pode ser moralista, não pode ter didatismo. Isso não me interessa."

 

13 de ago. de 2012

Livros censurados ganham exposição


Fonte: Portal Salário Mínimo. Data: 10/08/2012.

URL: www.salariominimo.net/2012/08/10/livros-censurados-ganham-exposicao-na-biblioteca-florestan-fernandes/

Quando Sandra Reimão, inspirada pela leitura do Roteiro censura cinematográfica no Brasil, de Inimá Simões (Senac São Paulo, 1999), foi atrás de uma lista de livros censurados na época da ditadura militar no Brasil, não esperava encontrar o que encontrou: nada.

Existem, sim, muitas reflexões acerca do período. Mas nenhum trabalho havia organizado esse dado em especial. A professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) e do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP iniciou, então, em 2005, o levantamento de informações para saciar essa curiosidade.

Cinco anos mais tarde, começa a ter forma seu livro Repressão e Resistência Censura a Livros na Ditadura Militar (Edusp, 2011), fruto da pesquisa desenvolvida, publicado em dezembro do ano passado. Presente no evento de lançamento, Moacyr Novaes, diretor do Centro Universitário Maria Antonia da USP, viu no tema a oportunidade de um curso e uma exposição. Sandra gostou da ideia ,e o resultado foi um curso de um mês, com quatro aulas, além de um exposição na Maria Antonia.

O sucesso do evento desencadeou outro interesse, dessa vez por parte da Biblioteca Florestan Fernandes, também da USP. A diretora Maria Laet e o membro da Comissão da Biblioteca José Carlos Estevão convidaram a autora para trazer a exposição para a biblioteca da FFLCH, onde está atualmente e onde fica até o próximo dia 31.

Sandra também é editora científica da Revista Matrizes, da pós-graduação da ECA, periódico que recebe artigos, resenhas e entrevistas produzidos por acadêmicos na área de comunicação. Enquanto eu montava os textos para a saber o que ia [na exposição], a revista recebeu e aprovou a resenha de Ivan Paganotti sobre o meu livro. Eu não conhecia o Ivan!, conta.

A editora executiva da revista foi quem contou sobre a resenha, e perguntou à Sandra se ela queria ler. Eu li e achei que ele tinha umas frases tão boas, que sintetizavam tão bem a ideia, que eu quis usá-las, relata. Assim, a parte escrita do banner foi feita em colaboração com Paganotti.

O design foi criado por Caroline Pedro e o tratamento das imagens feito por Carla Fontana e Cristiane Silvestrin. Assim, em maio desse ano o livro se apresentava ao visitantes de forma resumida e ilustrada, com capas de livros censurados e cópias dos pareceres emitidos pelo Departamento de Censura e Diversões Públicas (DCDP) do Ministério da Justiça do regime ditatorial.

Quando a exposição foi trazida para a Biblioteca da FFLCH, recebeu a contibuição de Maria Laet e da funcionária Marinês de Souza com exemplos sólidos para o conteúdo. Deu pra ver que todos os livros de não-ficção censurados estavam na Biblioteca Florestan Fernandes, o que indica como o acervo é completo, aponta Sandra.

O primeiro objetivo pretendido era identificar quais foram as obras marcadas pelo Serviço de Censura e Diversões Públicas (SCDP) do DCDP. Para isso, além de pesquisa bibliográfica e em jornais da época, Sandra foi até Brasília, no Arquivo Nacional, e abriu mais de 500 pastas contendo documentos de pareceres e proibições de livros. Destes, aproximadamente 120 eram de autores nacionais, listados em seu livro sob as categorias de ficção, não-ficção, peças de teatro e eróticos/pornográficos, divisão que se repete na exposição.

A segunda meta era entender como se dava o processo de censura. Falamos que havia censura prévia, mas ao mesmo tempo, falamos que havia apreensão. Como era o processo questiona a professora. Na maioria dos casos, explica, o livro era publicado e depois, se houvesse algum tipo de reclamação por parte da população, através de denúncia, ou de iniciativa do governo - ele era averiguado.

Emitiam-se então pareceres, como o que aconselha o impedimento da peça A farsa do Bode Expiatório, de Luiz Maranhão Filho, sob o pretexto de que trata-se de uma tentativa de levar a revolução ao descrédito, através de insinuações de que no Brasil não há liberdade.

A defesa da moral e dos bons costumes era motivo recorrente para cercear a liberdade de expressão naquela época, como se comprova no artigo primeiro do decreto-lei 1.077, de 26 de Janeiro de 1970: Não serão toleradas as publicações e exteriorizações contrárias à moral e aos bons costumes quaisquer que sejam os meios de comunicação.

A definição do que seria moral ficava na mão dos técnicos em censura, como Lilian Filus e Regina Russ, que julgaram perigoso o uso generalizado do texto sobre drogas no livro didático Programa de Saúde, já que se destina a adolescentes de 15 a 18 anos anos, no caso, os mais suscetíveis de querer experimentar o proibido, pois é a idade da busca de liberdade, e todas as gamas de sensação, de perigo e de aventura estão presentes.

O parecer completo, que inclui análise da mensagem, valor educativo e impressão final, está disponível no livro, na exposição e no Arquivo Nacional, que tem acesso aberto ao público.

Serviço


A exposição Repressão e Resistência Censura a Livros na Ditadura Militar tem entrada gratuita e aberta ao público, e fica disponível até o dia 31 de agosto na Biblioteca Florestan Fernandes, da FFLCH (Av. Prof. Lineu Prestes , Travessa 12, 350, Cidade Universitária, São Paulo).

O horário de funcionamento da biblioteca é de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 22 horas; e aos sábados, das 9 às 13 horas.

31 de mai. de 2012

Bibliotecas devem ter livros eróticos?


Fonte: Época. Data: 29/05/2012.

Autora: Margarida Telles

URL: http://colunas.revistaepoca.globo.com/mulher7por7/2012/05/29/bibliotecas-devem-ter-livros-eroticos/

Você já ouviu falar de “Fifty Shades of Grey”, o primeiro livro da trilogia escrita por E.L. James? Graças ao seu teor “caliente”, ele ganhou o apelido de “Crepúsculo para adultos”. A história do envolvimento de uma estudante com um empresário adepto do sadomasoquismo conquistou mulheres de todas as idades e fez a obra liderar a lista de livros digitais mais vendidos. Mas a maior polêmica sobre “Fifty Shades of Grey” foi a sua expulsão do catálogo de algumas bibliotecas.
m Brevard County , na Flórida, as bibliotecas públicas decidiram retirar os exemplares do livro de circulação. Os responsáveis afirmaram que não aceitavam pornografia em suas prateleiras. Quando questionados sobre terem obras como o “Kama Sutra” e “Trópico de Câncer”, justificaram que estes são “clássicos”.
A proibição gerou protestos, tanto dos fãs do livro como dos defensores da liberdade de expressão. Uma petição pública pedia a volta do livro, alegando que banir obras é inconstitucional, independente de seu conteúdo. “Não há espaço nas prateleiras das bibliotecas para a censura”, disse a Fundação Americana pela defesa das liberdades civis. Ontem, as manifestações surtiram efeito. As autoridades de Brevard County voltaram atrás, e decidiram colocar novamente “Fifty Shades of Grey” em seu catálogo.
Ainda não li o best seller, embora tenha bastante curiosidade. Dizem que o livro é ruim, em termos de escrita. Linguagem pobre, chavões, o pacote completo. Mas quando ele for editado no Brasil, espero que vá para as nossas bibliotecas. Me lembro do dia em que aluguei o “Trópico de Câncer”, de Henry Miller, na biblioteca da minha antiga faculdade – uma instituição católica.  Não gostei do livro, mas adorei ter constatado isso por conta própria, ao explorar as suas páginas.
Na minha opinião, censura é algo extremamente perigoso. Remete à ditadura, massificação, falta de autonomia civil e prepotência por parte do censurador. O livro é uma porcaria? Então deixe as pessoas decidirem. Como leitores, temos o direito de escolher se queremos ou não ler coisas ruins. Li a saga Crepúsculo inteirinha, achei péssimo em termos de literatura e mesmo assim adorei. Não vejo a hora de fazer o mesmo com “Fifty Shades of Grey”.

27 de fev. de 2012

Ministério Público Federal vai à Justiça para mudar verbete do Dicionário Houaiss

Fonte: Procuradoria da Republica em Minas Gerais. Data: 27/02/2012.
URL: www.prmg.mpf.gov.br/imprensa/noticias/direitos-do-cidadao/mpf-vai-a-justica-para-mudar-verbete-do-dicionario-houaiss
Publicação teria referências preconceituosas contra minoria étnica e editora se recusou a suprimi-las
O Ministério Público Federal (MPF) em Uberlândia ajuizou ação civil pública contra a Editora Objetiva e o Instituto Antônio Houaiss, para a imediata retirada de circulação, suspensão de tiragem, venda e distribuição das edições do Dicionário Houaiss que contêm expressões pejorativas e preconceituosas relativas aos ciganos.
Os réus também deverão recolher todos os exemplares disponíveis em estoque que estejam na mesma situação.
O objetivo é obrigá-los judicialmente a suprimir do dicionário quaisquer referências preconceituosas contra uma minoria étnica, que, no Brasil, possui atualmente mais de 600 mil pessoas.
Para o MPF, os significados atribuídos pelo Dicionário Houaiss à palavra “cigano” estão carregados de preconceito, o que, inclusive, pode vir a caracterizar crime. “A publicação faz semear aos que consultam esse significado a prática da intolerância, especificamente da intolerância étnica, em verdadeira afronta aos artigos 3º e 5º da nossa Constituição”, afirma o procurador da República Cléber Eustáquio Neves.
“Ao se ler em um dicionário, por sinal extremamente bem conceituado, que a nomenclatura cigano significa aquele que trapaceia, velhaco, entre outras coisas do gênero, ainda que se deixe expresso que é uma linguagem pejorativa, ou, ainda, que se trata de acepções carregadas de preconceito ou xenofobia, fica claro o caráter discriminatório assumido pela publicação”, diz o procurador.
Recusa
A ação originou-se de investigação iniciada em 2009, quando o Ministério Público Federal em Uberlândia recebeu representação de um cidadão de origem cigana questionando a prática de discriminação e preconceito pelos dicionários de língua portuguesa contra sua etnia.
Para esclarecer os fatos, o procurador enviou ofícios a diversas editoras com pedidos de informações.
Recebidas as respostas, ele expediu Recomendação às editoras para que fosse suprimida das próximas edições qualquer expressão pejorativa ou preconceituosa nos significados atribuídos à palavra cigano.
As Editoras Globo e Melhoramentos atenderam a Recomendação. A Editora Objetiva recusou-se a cumpri-la, sob o argumento de que seu dicionário é editado pelo Instituto Houaiss, sendo apenas detentora exclusiva dos direitos de edição.
“Por isso, não tivemos outra saída a não ser ingressar em juízo para garantir o respeito às leis e à própria Constituição, que proíbem não só a prática, mas o próprio ato de induzir à discriminação ou ao preconceito étnico”, explica Cléber Neves.
Racismo
O procurador da República afirma que “o direito à liberdade de expressão não pode albergar posturas preconceituosas e discriminatórias, sobretudo quando caracterizada como infração penal”. Segundo ele, a significação atribuída pelo Houaiss violaria o artigo 20 da Lei 7.716/89, que tipifica o crime de racismo.
O procurador lembra que o próprio STF já se pronunciou sobre o assunto, ao julgar o Caso Ellwanger. Naquela oportunidade, o Supremo Tribunal Federal entendeu que a propagação de ideias discriminatórias contra um povo, em um livro, constitui crime de racismo, não sendo apenas mera expressão de liberdade intelectual.
“O preconceito tende a desconsiderar a individualidade, atribuindo, a priori, características, em geral grosseiras, aos membros de determinado grupo. Portanto, o que o Dicionário Houaiss faz é um juízo antecipado, de índole extremamente negativa, acerca da nação cigana, igualando todos os seus membros”, lembra Cléber Neves.
Para ele, o fato de as afirmações serem feitas por uma publicação, que, por sua própria natureza, encerra um sentido de verdade, agrava ainda mais a situação. “Ora, trata-se de um dicionário. As pessoas consultam-no para saber o significado de uma palavra. Ninguém duvida da veracidade do que ali encontra. Sequer questiona. Pelo contrário. Aquele sentido, extremamente pejorativo, será internalizado, levando à formação de uma postura interna pré-concebida em relação a uma etnia que deveria, por força de lei, ser respeitada”.
Segundo Cléber Neves, “ao invés de disseminar preconceitos, os dicionários, como instrumentos reveladores do conhecimento, deveriam fornecer informações que pudessem justamente acabar com esses preconceitos”.
O MPF revela que, desde 2009, empreendeu vários esforços, com a expedição de inúmeros ofícios e recomendações à Editora Objetiva, para que a publicação excluísse as expressões pejorativas e preconceituosas, mas os réus ignoraram todos os pedidos. “Ao contrário da Editora Globo e da Melhoramentos, que prontamente acataram a recomendação e mudaram os seus textos”, afirma o procurador.
De acordo com o Ministério Público, a atitude da editora e do instituto teria causado, inclusive, dano moral coletivo, na medida em que agrediu de maneira absolutamente injustificável o patrimônio moral da nação cigana.
Por isso é que, na ação, além da retirada do Dicionário Houaiss de toda e qualquer expressão de cunho preconceituoso ou pejorativo contra os ciganos, o MPF também pediu a condenação dos réus ao pagamento de indenização por dano moral coletivo no valor de 200 mil reais.

11 de out. de 2011

Lobato censurado novamente


Fonte: O Globo. Data: 09/10/2011.
Autor: Ancelmo Góis.
Sabe aquela polêmica sobre o livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, considerado racista pelo movimento negro? O caso não terminou. A Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial recorreu ao ministro Fernando Haddad contra a decisão do Conselho Nacional de Educação, que, em junho, liberou o livro nas escolas públicas. Conforme Ancelmo Gois, também o professor Antônio Gomes da Costa Neto, de Brasília, que levantou a questão, recorreu da decisão a Dilma.

26 de mai. de 2011

Censura literária: TJ-SP proíbe livro escolar por conteúdo obsceno

Fonte: Consultor Jurídico. Data: 25/05/2011.
Autor: Fernando Porfírio.
A distribuição do livro Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século na rede pública de ensino de São Paulo está definitivamente vetada. A decisão é da Câmara Especial do Tribunal de Justiça paulista que confirmou liminar para impedir a circulação da obra a estudantes da 6ª à 9ª série do ensino fundamental e do ensino médio.
O livro reúne contos de autores brasileiros publicados a partir de 1900, entre eles Machado de Assis, João do Rio, Lima Barreto, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector. A principal motivação para o tribunal vetar a obra seria o texto Obscenidades para uma Dona de Casa, de Ignácio Loyola Brandão, que conta a história de uma mulher casada que recebe cartas anônimas de um homem.
O desembargador Maia da Cunha, relator do recurso, entende que o conteúdo de três textos da coletânea são “inapropriados” com “elevado conteúdo sexual”, e descrição de atos obscenos, erotismo e referência a incesto. A Secretaria da Educação iniciou a distribuição no ano passado, mas esta foi suspensa por uma medida cautelar da Justiça.
De acordo com a decisão, a exposição de contos com elevado conteúdo sexual a crianças e adolescentes sem uma análise mais apurada de sua adequação à faixa etária, poderia causar consequências indesejáveis à sua formação.
“É certo que não se sabe, ainda, qual a extensão desta exposição, nem seu resultado, mas, havendo dúvida, a melhor solução, nesta fase, é resguardar a integridade das crianças e adolescentes que ainda não tiveram contato com as obras”, afirma o relator do recurso, desembargador Maia da Cunha, presidente da Seção de Direito Privado.
O recurso foi apresentado pelo Instituto Nacional de Defesa do Consumidor (Indec). A entidade pretendia também que os exemplares já distribuídos fossem recolhidos. No entanto, a turma julgadora entendeu que, nesse caso, o eventual desrespeito à dignidade das crianças e adolescentes já teria se consolidado, razão pela qual seria ineficaz o recolhimento.
Pelo menos 18 mil livros foram comprados por meio do programa Apoio ao Saber, que destina anualmente três obras para os estudantes levarem para casa. A secretaria disse que a escolha dos livros é feita por uma comissão.

18 de mai. de 2011

Após veto, livro do MEC ensina como lidar com obra de Lobato

Fonte: Portal IG. Data: 16/05/2011.
Autora: Cinthia Rodrigues.
Depois de ter a obra Caçadas de Pedrinho vetada pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) por racismo, Monteiro Lobato ganhou agora duas páginas com um “modo de usar” em livro que será enviado pelo Ministério da Educação (MEC) a 157 mil professores de 1º ao 5º ano. O volume 19 da Coleção Explorando o Ensino diz que a personagem Tia Nastácia deve ser apresentada com “análise” e sem “julgamento”.
Em outubro do ano passado, o CNE decidiu por unanimidade recomendar que não se distribuísse o livro publicado em 1933 por considerar que algumas passagens são racistas. O veto foi derrubado pelo ministro da Educação, Fernando Haddad, que devolveu o texto ao conselho solicitando uma revisão, que não ocorreu até hoje. Agora, um livro elaborado pela Universidade Federal de São Paulo e que será distribuído no segundo semestre para escolas de todo o País se refere a Monteiro Lobato em capítulo intitulado “Leitura e Compreensão: a ronda dos preconceitos e estereótipos” e explica como os educadores devem tratar de “Tia Nastácia, a inesquecível personagem referida como 'negra de estimação', logo nas páginas iniciais do Sítio do Pica-Pau Amarelo.”

2 de mai. de 2011

Polêmica sobre livros didáticos aprovados pelo MEC

Fonte: Folha de S. Paulo. Data: 01/05/2011.
Autores: Por Luiza Bandeira e Rodrigo Vizeu.
Livros didáticos aprovados pelo MEC para alunos do ensino fundamental trazem críticas ao governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e elogios à gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Uma das exigências do MEC para aprovar os livros é que não haja doutrinação política nas obras utilizadas. O livro História e vida integrada, por exemplo, enumera problemas do governo FHC (1995-2002), como crise cambial e apagão, e traz críticas às privatizações. Já em relação ao governo Lula (2003-2010), o livro cita a "festa popular" da posse e diz que o petista "inovou no estilo de governar" ao criar o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. A Folha não conseguiu falar com os autores da obra. Os livros aprovados pelo MEC no Programa Nacional do Livro Didático são inscritos pelas editoras e avaliados por uma comissão de professores. Hoje, 97% da rede pública usa livros do programa.

Fonte: Folha de S. Paulo. Data: 01/05/2011.
O Ministério da Educação não comentou o tratamento dado a FHC e Lula nos livros. Em nota, listou os critérios técnicos que usa para aprovar os livros, como o que veta obras que "fizerem doutrinação religiosa ou política". A autora Joelza Ester Rodrigues, do livro História em documento, da editora FTD, afirmou que seu livro é imparcial. Ela disse que detalhou as alianças com "conservadores" só no caso de FHC porque o contexto do livro deixa pressuposto que os "partidos adversários" aos quais o PT se aliou também eram conservadores. A Abril Educação, que controla as editoras Ática e Scipione, afirmou, por meio da assessoria de imprensa, que tem uma "política voltada à pluralidade de seus autores e à independência e excelência editoriais".

11 de jan. de 2011

Paulo Coelho censurado no Irã

Fonte: Blog do Paulo Coelho
URL: http://paulocoelhoblog.com/
Ele pede ajuda do governo brasileiro para resolver este “mal-entendido”

Paulo Coelho tem seus livros publicados no Irã desde 1998 e estima que já tenha vendido mais de 6 milhões de cópias no país. Agora, 12 anos depois da livre circulação de suas obras durante diferentes regimes, o governo iraniano decidiu proibir a venda de qualquer título que leve o nome do mago na capa. Ele acredita que se trate de um mal-entendido e pede que o governo brasileiro ajude na busca por uma solução. A ministra da Cultura Ana de Hollanda disse que qualquer tipo de censura é abominável. Por enquanto, e por sugestão do amigo-editor Arash Hejazi, perseguido pelo Irã, os títulos serão disponibilizados em persa para download gratuito.

7 de jan. de 2011

Editora altera texto de Mark Twain

Autor: Julie Bosman.

Fonte: Folha de S. Paulo. Data: 7/01/2011.

Alguma coisa está faltando em uma nova edição de As aventuras de Huckleberry Finn (1884). Ao longo do livro, por 219 vezes, a palavra "nigger" [algo como crioulo] foi substituída por "slave" [escravo], por decisão da editora NewSouth Books, sediada no Alabama, que planeja lançar a nova versão do romance em fevereiro. Alan Gribben, professor de inglês na Universidade Auburn, em Montgomery, procurou a editora e propôs a ideia. Desde que a editora discutiu o plano de lançar o livro, em reportagem publicada esta semana pela revista "Publishers Weekly", vem recebendo e-mails e telefonemas desfavoráveis, disse Suzanne La Rosa, cofundadora e diretora editorial da NewSouth Books. A notícia deflagrou uma tempestade de comentários furiosos on-line, com a editora sendo criticada por "censura" ou "correção política".